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terça-feira, junho 17, 2003

Cadáveres esquisitos,

Sabíamos muito pouco sobre o Surrealismo. Chamávamos-lhes simplesmente histórias e quase pensávamos que a invenção era nossa — suspeitávamos, sem insistência, que não. Ocupávamos com elas, as histórias, os intervalos das declinações nas aulas de Latim. Ou as tardes em casa de um de nós, acompanhando com batatas fritas congeladas e maionese caseira, primorosamente confeccionada tendo em vista o desenvolvimento do acne (um mal que partilhámos, entre outros).

Nas aulas, as folhas de linhas, arrancadas ao dossiê ou desviadas do fim do caderno, circulavam clandestinas, dobradas sobre as linhas escritas por quem as estendiam. Antes, os jogadores eram convocados por gestos convencionados e olhares cúmplices. "Queres entrar na história?" Aquelas em que o Ponto entrava, falavam de desamores, paixões impossíveis, intensos afectos.

Voltei às histórias anos mais tarde, mantendo-me do lado de lá do texto, com a Antologia do Cadáver Esquisito, compilada pelo Mário Cesariny e editada pela Assírio e Alvim (1989). Ouvi ler "Alguns provérbios e não" e outras criações ortodoxas ou heterodoxas, na Praia Grande e não resisti, então, a pedir emprestado o livrinho de capa preta com folhas lateralmente vermelhas. Mas só este mês, dez anos depois das histórias e sete passados desde o primeiro encontro com a edição, me reencontrei com o pequeno volume que guardo, finalmente, só para mim. (D)este não (me) liberto eu.

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