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terça-feira, outubro 28, 2003

Desculpe lá o incómodo

Ontem fui a um café (não digo isto para que saia no Público, mas para servir de introdução a um tema - porque, de resto, até é mentira). Porque será, que é um entendimento bilateral (ele acha, e nós também), que o empregado nos está a fazer um favor? Pede-se a bica "Olhe, desculpe lá, se não for pedir demais, queria uma bicazinha, fáchavor." E, para não restarem dúvidas, trata-se o EMPREGADO pelo seu título: "Ó chefe". Até pedimos o castigo com aquele ar de ovelha-que-sabe-que-vai-ser-eletrocutada ("Quando puder, queria a continha... ó chefe").

O meu avô tinha a mania de ir todos os dias duas vezes ao café. Sempre o mesmo: O Eiffel, na rua com o mesmo nome. 50 anos de persistência, totalmente inúteis. Era sempre tratado como se viesse chatear a malta de novo.
Outro dia, num restaurante, fui testemunha de um caso típico, que vou inventar aqui, agora:

Cliente (C): Olhe, desculpe lá...
(C): Ó chefe...
(C) Olhe, quando tiver um tempinho...
Empregado (E): Sim diga, por favor.
C: Desculpe lá, mas eu não pedi isto.
E: Como assim?
C: Então, eu pedi um bife na frigideira, com ovo. Isto é uma massada de peixe com marisco.
E: Mas olhe que está muito boa.
C: Mas apetecia-me mesmo é o bife. E sou alérgico ao marisco.
E (já irritado, mas a conter-se ainda): Tsss, alérgico. Isso é marisco fresquíssimo. As delícias do mar foram descogeladas no momento. Vocês está-me a dizer que isso faz alergia? Olhe que isto é um establecimento de qualidade!
C: Não, sabe, desculpe lá, mas isto da alergia - é congénito.
E (tom mais levantado): Com génito?! Aqui não temos cá nada dessas porcarias, hã! Se você tem alergias, não nos culpe a nós, pá! Você acha que eu não tenho mais nada para fazer? Eu 'tou aqui a trabalhar, e você vem práqui dizer que meto porcarias no comer?!! - virando-se para a restante clientela - Eu bem sei que há prái malta a meter génito em tudo mas isto aqui é uma casa séria só tudo fresquíssimo nada de porcarias. (É mesmo assim, sem vírgulas).
C (muito, muito enfiado): Não, não, desculpe lá: é congénito - é de nascença...
E (em tom de agora-é-que-está-tudo-estragado): Ahh!! Nascença, hein?! Agora faço merdas desde que nasci! Tome lá a continha e ponha-se mazéforadaqui. E depressinha, antes qu'eu perca mesmo a paciência.

O cliente sai - passo curto e rápido - , cabisbaixo, com a perfeita noção de que se comportou de uma maneira intolerável. Deixa 15 Euros para pagar uma conta de 8,39, sem pedir troco, e ainda tem o desplante de desejar um bom dia.

E (virando-se para a clientela): Já me viram isto, hã? 'Tá um gajo aqui a trabalhar que nem um cavalo e aparecem estes tipos a gozar conosco. Já não há respeito por quem trabalha, essa é que é essa. Ó Ermenegilda, sai um bitoque para a mesa 1!
C2: Mas olhe que se é para mim, eu pedi uma açorda...

O café continua lá, os empregados continuam os mesmos. O meu avô morreu. Se vivessemos num país com noção do que é serviço, o café teria falido há 49 anos, e o meu avô teria 100 anos agora.

Acaba aqui. Para me insultar pela (má) qualidade, pelos erros e pela completa falta de compreensão para com o homem trabalhador, podem ir bater-me em: R. Barão de Sabrosa, 340 - 2º esq. No entanto, preferia que me ignorassem, pelo menos até que sarem os hematomas da última vez que pedi um bife. Au.

* (Asterisken)

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