A pontuar desde 2003.

segunda-feira, outubro 27, 2003

Prenúncio em Algés,

Era o céu escuro, quase noite, com o recorte dos prédios iluminados pela luz amarela que o sol põe ao entardecer. Eram cinco da tarde porque é Outono e o tempo nos confundia, desajustado ainda do tamanho dos dias.

Não chegámos a ver a tempestade – ainda não tinha chegado ali. Quase que não vimos a feira de coisas velhas – toldaram-se as coisas com os preparativos do fim. Vimos o vento a fazer girar as palmeiras. Rápidas, as mãos dos feirantes a apanhar os objectos que regressavam aos sacos, aos carros, ao intervalo das histórias. Não tenho a certeza se foram as pessoas que começaram a correr quando choveram as primeiras gotas, pesadas e distantes. Ou se foi o vento a crescer em espiral e por isso os movimentos pareceram-me todos mais acelerados. Ou se durante a nossa fuga, sob os meus olhos passaram ainda mais coisas velhas, em trânsito para dentro dos sacos, para dentro dos carros, para longe dali.

Foi no abrigo do carro que vimos as gaivotas fugidas, desarrumadas entre os prédios, brilhantes também elas, sobre elas o mesmo sol. E logo a seguir, com as cores todas, os dois arco-íris. Um dentro do outro, voltas perfeitas, mais nítida a ilusão de dentro que a ténue sugestão de fora.

A voz da Jussara anunciava certezas. Por isso, e porque é natural de muitos lugares e também daquele, tive que acreditar quando me disse mais do que uma vez: “só em Algés é que podes ver uma coisas destas”. Deixámos o rio para trás, cinzento, a nuvem carregada colada ao Tejo e, antes do azul celeste de uma bonança superior, o sol na nuvem branca, néon horizontal. À medida que regressávamos à cidade, foi desaparecendo tudo o que parecia ser.

|