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sábado, outubro 25, 2003

Versos do Zé Mário, a propósito do comentário,

56 (hades)

Entram e saem do autocarro
e nem olham para as pessoas
que vão sentadas nas cadeiras
de plástico amarelo, nem olham
para as crianças que abanam as
pernas e puxam as saias das mães,
nem olham para os velhos que
andam às voltas pela cidade a
ver se matam o tempo, não olham
para o viaduto, não olham para a
Avenida de Ceuta, não olham.
Entram em vários sítios e saem
sempre no mesmo, ali em frente ao
morro. O autocarro segue a marcha
e as pessoas não sabem o que fazer com
as mãos. Ficam os silêncios, o cheiro.
E regressa lentamente ao mundo dos
vivos a tenebrosa barca de Caronte.


José Mário Silva, Nuvens e Labirintos, Gótica, 2001

lisboa

Para ele
a cidade
era só isto:
andaimes
e palavras.


José Mário Silva, Revista Relâmpago, 4/2003

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