A pontuar desde 2003.

quinta-feira, julho 31, 2003

Indícios passados,

Gosto deste poema porque fala de mim e da minha casa, tendo sido escrito antes.

BESTIÁRIO MÍNIMO

I. corvos
Vírgulas suspensas
entre ciprestes.

II. grilos
Já se calaram há muito
mas o seu canto ficou a pairar
sobre a seara, dentro da cabeça.

III. salmões
O rio original, espécie de útero,
chama por eles. E eles voltam.

IV. rãs
Vivem na margem do lago,
à espera de uma fábula ou
de um verso japonês.


José Mário Silva, Nuvens e Labirintos, Gótica, 2001

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Aviso aos leitores todos,

Segue-se um poste umbiguista e, além do mais, escrito por mãos alheias.

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Aviso ao novo leitor,

Se veio pela esquerda não procure as razões do favoritismo. Este não é um blogue sério (e, na ausência do Ponto, também não é um blogue de humor). Mesmo sem razão, sem piada, sem seriedade, tentaremos não desiludi-lo. Quando voltarmos a ser dois: o Ponto e a Vírgula.

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quarta-feira, julho 30, 2003

Inspiração divina,

Uma pessoa passa o almoço à espera do momento iluminado do poste e o homem de fé é que esbarra nele à saída do restaurante.

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Prece na opacidade,

Não bastava a temperatura acima dos limites urbanamente suportáveis? Era mesmo preciso deitar sobre a cidade um véu de tule? Caro São Pedro: os resistentes do Agosto que se aproxima não desejam casar, aspiram à nitidez da linha do horizonte e aos três duches diários.

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terça-feira, julho 29, 2003

Salgado,

Geralmente, quem tem um blogue dá uso a palavras próprias ocultando o corpo atrás do teclado e do monitor. Não é o que se passa neste que sabe a sal, onde as palavras são emprestadas e as imagens partilham com a escrita espaço e importância. (A exclusividade do linque foi, para mim, uma surpresa.)

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Nada a acrescentar,

Deixou de me apetecer escrever sobre o discurso dos media (há blogues que o fazem irrepreensivelmente e até debatem entre eles). Há uma boa dúzia de semanas que hesito antes de escrever sobre a blogosfera: regra geral, quando chego, já li algures o que diria. Não posso, por agora, dialogar com o Ponto para quem as férias se revelaram um voto de silêncio. Sem nada a acrescentar ao hábil manuseamento da escrita no estilo minimal das minhas preferências, resta-me escrever sobre trajectos quotidianos. Pois bem, leitor amigo, continuo a apanhar todos os dias o mesmo autocarro, a circular nas mesmas linhas e a usar as mesmas saídas de metro. E a si, o que o traz por cá?

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Vírgula opina,

Gostei de ler ontem o Pedro Lomba na "primeira pessoa". Apesar ter afirmado na véspera que não gostava de metabloguismo, o rapaz pratica-o primorosamente, no modo introspectivo, enquanto esclarece a identidade do blogger. Num só poste (um pouco maior do que o habitual, é certo, mas com uma fluidez que não desilude) percebi porque é que leio sempre o que se publica na flor de obsessão.

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Máxima inútil,

"Não postes amanhã o que podes postar hoje" - se por isto se regesse o meu blogar o que faria nos dias em nada resta para ser dito?

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segunda-feira, julho 28, 2003

Vírgula desatenta,

(Ou correcção ao poste Linque atrás de linque,)

Não fossem estes senhores aqui, não percebia qual era a verdadeira linha editorial deste blogue. Transcrevo a elucidação postada enquanto me culpo por não ler os arquivos de um blogue acabado de descobrir.

Uma questão de espaço
Este blog recolhe posts que abordem questões de espaço, memória e construção (vulgo arquitectura, para o comum mortal). Têm bom gosto, apesar de citarem alguns posts meus. O que é que ainda fazem aqui a ler estes dislates? Ide lá, ó indolentes.BR


Ainda por cima o que passou ao lado foi um conceito novo e interessante. É o que dá esperar por domingo à noite para pôr em dia a leitura da blogosfera.

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domingo, julho 27, 2003

(Des)acossada,

Diz Jean Seberg no À bout de Souffle (Godard, 1959): "Não sei se sou infeliz porque não sou livre ou se não sou livre porque sou infeliz". Acho que a dúvida na afirmativa não é menos pertinente.

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Metas,

Meta~ Elemento de formação de palavras, de origem grega, que exprime a ideia de mudança, união, transformação no vocabulário científico, e a ideia de nível superior, maior generalidade no vocabulário filosófico. (do gr. metá. «além de; para além de») In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora (2003)

Quem pensa sobre o que faz, gostará de espreitar esta colectânea de metapostes.

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Linque atrás de linque,

Posta-se aqui em velocidade de cruzeiro, finda a histeria inicial e ultrapassadas as crises de assunto. Com o Ponto a bronzear-se, a novidade que diverte a Vírgula, de serviço no blogue, é o sitemeter, especialmente a funcionalidade que indica as setas que cá trazem os leitores assíduos e visitantes esporádicos. Foi assim, a seguir os linques seguidos, que descobri uma espécie de posto de escuta aqui que recolhe amostras dos blogues portugueses. Pelos vistos, este canto tem sido terreno fértil na recolha. Agradece-se a preferência.

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Da melhor das três,

Depois das carteiras da escola primária, depois da alegria do segundo toque na C+S, o Ponto e a Vírgula reencontraram-se na antecâmara do Ensino Superior. Por cá não há Vestibular, mas gosto dessa palavra porque me lembra o tempo em que só havia três aulas por dia e direito a folga semanal em dia útil. O tempo em que, ao lado do Ponto, madrugada fora, estudei mais séria e intensamente.

Filosofia era a melhor das três disciplinas do 12º ano e, também a que exigia o melhor de nós. Talvez tenha sido só porque queríamos mesmo passar para a fase seguinte, na primeira opção, mas a verdade é que dessas noites longas me ficou alguma coisa dos pensadores modernos. "Não é possível pensar o mesmo, numa cabana ou num palácio", disse-o, mais ou menos assim, Karl Marx. Os mais istas da blogosfera que corrijam a sintaxe e a semântica da afirmação. A mim interessa-me agora a ideia de que não é possível postar o mesmo de um PC ou de um Mac.

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sexta-feira, julho 25, 2003

Entre os caracteres,

Não sei se acredito em postes para lá desta blogosfera, noutros mundos de sentidos paralelos, dados a ver apenas aos escolhidos. Pero que los hay, hay.

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Sala de espera,

Desconfio que uma das razões para a Praça da Alegria animar as manhãs das salas de espera e cabeleireiros são os SMS que passam em rodapé, independentes do som. Depois de ler “As ondas do mar são felizes porque podem beijar a areia. Gertrudes Maria, eu sou infeliz porque te amo e não posso beijar-te.”, achei que, se calhar, devia rever os postes em que apelo às mensagens curtas.

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Serviço Nacional de Saúde,

Será possível não hesitar quando a pergunta vem do guiché: "a senhora é isenta?"

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quinta-feira, julho 24, 2003

Medidas pequenas,

... eu não sou um intelectual, mas poderia ser — disse o senhor Henri.
... se por cada vez que bebi um copo de absinto nesta excelentíssima biblioteca tivesse lido um livro nas outras bibliotecas, já saberia de cor a história inteira dos visigodos.
... o problema é que há mais povos que cerejas, e se eu aprendo a história toda dos visigodos, perco o tempo necessário para estudar a história dos ostrogodos, que por acaso não existem.
... o melhor era reunirem todos os factos e todos os acontecimentos num livro, e depois reduzirem esse livro a metade do tamanho e assim sucessivamente, até conseguirem pôr todos os conhecimentos do mundo numa frase de dez palavras.


Estas linhas foram roubadas n'"O Senhor Henri" de Gonçalo M. Tavares, editado pela Caminho.

A Vírgula aprecia números baixos, gosta do minimalismo lírico que aqui se posta, mas despreza o Reader's Digest. Por isso e não só, no que respeita à blogosfera sou forçada a concordar com o senhor Henri: postai curto mas com sumo, por favor — o concentrado, a bem do nosso tempo para a literatura.

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Filho desejado,

Quem não se comove um pouco com a história da sua concepção? Aqui, num poste amigo, fala-se da re-união do Ponto e da Vírgula que originou este blogue.

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Mesa posta,

Quatro pratos, quatro copos de vinho, quatro copos de água, quatro talheres, quatro guardanapos; no centro, fervilhava o azeite. Por causa das confusões, os garfos que seguravam a carne eram diferentes: a cada um a sua cor; a cada um o seu blogue.

O lado litúrgico de uma refeição torna-se mais evidente se o fondue constar da ementa. Eu gosto de dar graças no fim.

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quarta-feira, julho 23, 2003

Fim de ciclo,

No início, era preciso sair de casa, esperar pelo autocarro certo, descer em frente à igreja, atravessar o pátio, chamar o elevador, subir até ao quinto andar e ter a sorte de aí estar afixada a pauta. Quase no fim, passou a estar tudo mais ligado, menos por acaso: o número de aluno, o número do BI, o enter para o número que faltava. Há bocado, quando carreguei no botão para o sign out, pareceu-me ouvir a porta fechar-se.

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Quase de graça,

A Vírgula atende o público, se houver. O que é tão raro que, quando acontece, não consegue evitar um sorriso. Não é por simpatia, é pela companhia.

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Aqui há gato.

Numa estação de serviço espanhola fui saudado com um "Hola, buenas tardes, tudo bien?" à entrada e um "Buena viage, gracias!" à saída. A senhora não me conhecia de lado nenhum e, aparentemente, estava preocupada com o meu bem-estar e a minha segurança em viagem. Pelo menos, foi o que depreendi. Só não percebi uma coisa - se ela não ganha mais por ser simpática, porque é que escolheu sê-lo? Strange...

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Crash-a-cue.

A subir os Cabos de Ávila, ali na zona industrial de Alfragide, deparo-me com um cenário, infelizmente, mais do que habitual nas estradas portuguesas - a clássica fila causada pelo fascínio mórbido pela desgraça alheia. Era, de facto, um acidente aparatoso, com carros capotados, bombeiros, ambulâncias e tudo o mais a que um acontecimento do género terá direito. Bolas, até eu, se não estivesse ocupado a conduzir, era gajo para ali ficar um bom pedaço a apreciar o cenário. E então, lembrei-me - porque não criar umas escapatórias móveis, instaladas em frente aos locais dos acidentes mais espectaculares, que permitissem aos automobilistas descansar as pernas enquanto assistem a uma boa reanimação cardíaca? Melhor, porque não levar para lá os feirantes desalojados ali de Entrecampos e dar-lhes trabalho, a entreter a malta com febras rijas, salgadas e frias e sardinhas, cruas, congeladas e más? Agora digam lá se é ou não uma ideia de génio?

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Monteiro Ex-Machina.

O novíssimo tomo da saga "Exterminador Implacável", o terceiro, dá pelo nome de "Exterminador Implacável III - A Ascensão das Máquinas" - ora, ainda bem que ouvi este fabuloso título acompanhado das devidas imagens do filme. Caso contrário, estaria tentado a imaginar que a Nova Democracia tinha operado um golpe de estado entre um dos meus mergulhos e que o título supra-referido era a manchete do Diário de Notícias do dia seguinte...

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Ponto to the rescue.

Onde se lê "Ponto" leia-se Buzz Lightyear e temos um pedido de auxílio atendido em tempo recorde, para entrega imediata. Cara Vírgula, caros leitores (quantos são, mesmo? ainda não explorei os meandros insondáveis do enetation...), não estou de volta, estou apenas de passagem (agora todos - "ohhhhhh...."). No entanto, ficam aqui uns posts relâmpago e a certeza de que a tasca que aqui deixei vai a caminho de uma "Brasserie", com a Vírgula aos comandos. Vemo-nos num post já a seguir.

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terça-feira, julho 22, 2003

Saudade pontual,

Dois postes sobre futebol? Ponto, Ponto! Este blogue precisa de ti...

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Globolização,

Não sou especial amante de futebol — prefiro, numa relação fascínio-desprezo o universo discursivo que o envolve, mas revolta-me o dinheiro e influências que movimenta. Provavelmente não me interesso o suficiente para deixar de me confundir o facto do Deco, que fala em português do Brasil e veste uma camisola com quinas, desejar jogar em Espanha.

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Letras gordas,

O Sporting de Braga fez uma aquisição para o plantel que, mais do que agradar à equipa técnica, aos dirigentes ou aos adeptos, agradará, sem dúvida, aos jornalistas. Imagino-os, nas redacções dos desportivos, a esfregar as mãos com as manchetes: "Nem joga, Nem marca" e outras que tais.

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Ombros à mostra na blogosfera,

Elas são seis e, amantes do calor e da boa disposição, postam de vários cantos de Lisboa à hora da Jamaica. Tomara que caia é um blogue que alberga uma portuguesa que gostava de viver no Brasil; uma portuguesa como ascendência grega; uma portuguesa com nome que se não é brasileiro soa a isso; duas portuguesas cujas relações internacionais desconheço e uma brasileira de passagem por Portugal. Sem regras para uniformizar os postes — umas servem-se dos acentos, outras não; umas usam maiúsculas no início das frases, outras nem por isso; umas dão títulos ao que postam, outras de vez em quando — escrevem as raparigas, como muita alegria, sobre tudo um pouco. Dos usos do nome do blogue na sua terra natal ("tomara que caia" quer dizer cai-cai em português do Brasil), a casamentos extemporâneos, a conversa vai bem mais longe que o espelho da casa-de-banho e já tinha piada se ficasse por aí. Admito, são minhas amigas... mas acho que não é só por isso que linco este blogue sem alças. É ir lá e avaliá-lo.

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Ida e volta,

O mesmo balcão; as mesmas casas-de-banho; os empregados, de farda igual e rostos indiferenciados: não sei se as estações de serviço ficam do outro lado da autoestrada ou do outro lado do espelho.

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Subterrâneas ordens superiores,

Eu entendo que seja importante avisar os viajantes esquecidos que se chegou a uma estação terminal. Também me parece se justifica alterar o tom de voz com que o aviso é feito, diferenciando-o do monocórdico “próxima estação”. Mas já ouviram bem a violência com que a voz do Metro nos atira, no Cais do Sodré, “senhores passageiros, é favor saírem do comboio”? Surpreendida com o tom demasiado peremptório, dou comigo a imaginar, sempre que oiço o ralhete electrónico, festas subterrâneas com acesso condicionado aos que se escondem debaixo dos bancos do comboio.

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Quando o telefone tocava,

No tempo dos números fixos e das tardes longas, havia quem se divertisse com chamadas supostamente anónimas. Um clássico:

- Está? É da Lavandaria Joaninha?
- Não...
- Não? Aí não lavam roupa?
- Não...
- Seus porcos!


Eu sabia que o autor desta infantil brincadeira de adolescência não era muito original: nem se dava ao trabalho de disfarçar a voz e, mesmo quando recorria à música, variava pouco na escolha da banda sonora. O que nunca pensei foi que a "Lavandaria Joaninha" existisse mesmo e apenas a um quarteirão da casa do infeliz. Foram precisos treze anos para a descoberta.

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sábado, julho 19, 2003

As aulas em postes,

Entrou um novo blogue para a minha lista de obrigatórios. Os temas abordados não são novos para mim, nem o que deles diz o autor — fui várias vezes aluna de José Bragança de Miranda que emite agora a partir daqui reflexos de azul eléctrico. Corpo, carne e ligações, imagens e literatura, numa "tentativa inútil de pensar on-line: micrologias esparsas e com pedido de desculpa aos mais sensíveis". Não precisam de lá ir, os mais leves.

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Pai (apenas) Itálico,

E se dissessem o nome dos escritores assim (a ordem da enumeração é aleatória):

António Antunes; José dos Santos; António Rosa; Camilo Branco; António Castilho, Carlos Dias, David Ferreira; José Peixoto; António Alexandre; Fernando Amaral; Mário Vaconcelos; José Saraiva; José Pires; João Simões; Alexandre Torres...

Quem ficava a saber que estes nomes correspondiam a António Lobo Antunes; José Carlos Ary dos Santos; António Ramos Rosa; Camilo Castelo Branco; António Feliciano de Castilho; Carlos Malheiro Dias (ou Carlos Amaral Dias); David Mourão Ferreira; José Luís Peixoto; António Franco Alexandre; Fernando Pinto do Amaral; Mário Cesariny de Vasconcelos; José Hermano Saraiva; José Cardoso Pires; João Gaspar Simões; Alexandre Pinheiro Torres?

Coitado daquele dramaturgo e um dos maiores historiadores do teatro português. Só porque anda fiscalizado, indiciado e metido em alhadas por causa da Sociedade Portuguesa de Autores, há um canal de televisão que lhe chama insistentemente Luís Rebelo. O Luís Francisco Rebelo não merecia tanto. Lembro-me sempre de um debate televisivo entre Jorge Sampaio e Macário Correia, ambos candidatos à Câmara de Lisboa, em que o agora Presidente da República chamava ao adversário Engenheiro Correia. E o Macário, durante o debate, magoadíssimo, fez o reparo, pedindo a Jorge Sampaio que não o tratasse assim. O que diria o Pedro Lopes, hoje edil?


O Pai Itálico é mesmo pai e é da Vírgula.

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sexta-feira, julho 18, 2003

O poste que sempre quis,

Achava piada aos blogues que se dirigiam aos leitores googlianos e confesso que não acreditava nos linques referidos como motivo do clique. Mas, confesso também, desejava secretamente saber o que leva alguém que se passeia na vasta teia a entrar num blogue onde tagarelam, a céu aberto, um Ponto e uma Vírgula. E, mais ainda, gostava de interprelar esses que aqui vêm à procura de alguma coisa. Satisfaço pois, publicamente, essa minha vontade e escrevo em discurso directo:

Aos leitores que chegaram aqui procurando blogue + Tindersticks peço que não considerem a visita em vão e prometo comentar o novo álbum quase faixa a faixa (quando conseguir parar de o ouvir).

Ao leitor que chegou aqui depois de escrever no sapo Catan + Portugal queria pedir-lhe que me avisasse quando encontrar esse fantástico jogo de tabuleiro que é "Os Descobridores de Catan" no circuito comercial. Mande um mail, por favor. Se for adepto da outra via postal, pode enviar o jogo, não me importo de o ir levantar à estação dos correios.

Ao leitor que chegou aqui em busca de mobiliário + Paços de Ferreira desejo muitas felicidades na casa nova e melhor sorte nas pesquisas on line.

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Sitemeter is watching you,

Estava a Vírgula, qual carocha a varrer o blogue quando encontrou, num cantinho, lá em baixo, não uma bola de cotão nem uma moeda de tostão, mas um reluzente quadrado riscado.

É verdade: já temos audímetro. E com isso ganhámos a consciência do público, entidade concreta e bem medida. A realidade dos números caiu-nos em cima da cabeça, assim, sem aviso, no dia em que comemorámos o nosso segundo mês de vida. Desde então, ainda não atingimos meio milhão de visitas. Isso não me entristece, mas confesso que esta funcionalidade que tanto desejei retira ao blogue um pouco do charme que tinha. Bons tempos aqueles em que postavámos a pensar que só os nossos pais nos liam, que saudades da altura em que não sonhávamos como chegam a nós os que nos visitam. Mas o lado mau da coisa é mesmo eu ter deixado de poder lamentar-me da falta do dito contador. Digamos que estas queixas, num tom quase conformado e ciente do pequeno defeito pessoal (melhor: blogal), faziam parte do nosso encanto... assim como o Pedro Mexia quando assume, sem pudor, que não tem namorada.

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quinta-feira, julho 17, 2003

Ponto (fora) da situação,

O Ponto foi a banhos. E, ainda que me tenha nomeado porta-voz das mensagens que enviará em 160 caracteres para aqui postar, desconfio que será difícil inventar, reduzir e emitir piadas e ácidos comentários estendido na toalha, cheio de bronzeador, ouvindo a cadência das ondas. Enquanto isso, nós na cidade, a deliciarmos-nos com a descida da frequência das buzinadelas... Lisboa em Agosto é um pequeno paraíso. Mas, uma vez que ainda estamos em Julho, deixarei esta dissertação para a falta futura de assunto.

Entretanto, continua o Festival de Teatro de Almada, com fim à vista na próxima sexta-feira e, nos intervalos dos espectáculos, há uma enorme lista de filmes para pôr em dia. Quando se escolhe o viver em detrimento do relato do vivido, o resultado (a escassez dos postes, as lamentações sobre os assuntos pouco tratados) fica à vista de todos no blogue. Todos não sabemos quantos são, mas ouvi recomendar o Ponto e Vírgula a um escritor premiado e traduzido e fiquei preocupada. Por isso, aviso os veraneantes da blogosfera: este é um blogue em dueto, com pretensões pontuais a engraçado. A Vírgula, que disse inicialmente que gostava de ter um blogue sério, encarrega-se agora de manter a casa fresca e arrumada. Rasgos de inteligente humor, só daqui a duas semanas.

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Out of Penha,

Rodo-a na fechadura e enquanto empurro a porta, ainda com a mão na chave, oiço a casa habitada. Na sala, fala a televisão. Um canal português emite o "África Minha". Meio em fuga da voz da Meryl Streep que dá corpo às palavras iniciais de Karen Blixen: "I had a farm in Africa", refugio-me noutra divisão e escuto-me, também ao longe, "eu tive um quintal na Penha de França."

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quarta-feira, julho 16, 2003

Sem net, com rede.

Valores mais altos se elevam, e agora que o sol não me atraiçoa, rumo a sul. Nas próximas três semanas os meus contactos com a blogosfera serão esparsos e esporádicos, mas sempre intensos. Na impossibilidade de fazer mais e melhor, prometo manter-me ligado através da rede TMN, pela mão dos sempre imprescindíveis SMS. Conto então com a Vírgula para, em meia dúzia de palavras (as ideais para estas épocas estivais), vos enviar notícias deste Portugal e de restante Jangada de Pedra.

A todos um forte abraço, cáustico, apertado e bem concreto, ao contrário do que esta barreira tecnológica que nos separa (une?) poderia fazer supor. Vemo-nos a sul.

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terça-feira, julho 15, 2003

Reencontros antagónicos,

Numa fúria taxinómica (que vem mesmo a calhar, na falta de assunto), sou tentada a classificar os meus reencontros em dois tipos.

Nos encontros tipo A, dizem-me, antes que eu conte a história resumida da minha vida nos últimos três meses: "tenho sabido de ti e do Ponto, leio o blogue". Estes encontros, além de substituirem o sitemeter enquanto não conseguimos instalar devidamente essa funcionalidade e vivemos na ilusão de que somos lidos apenas pelos comentadores e pelos nossos (itálicos) pais, provam que os nossos colegas da primária nos espreitam silenciosamente. Fiquem sabendo, caros companheiros recreio, que assim não fazem a mínima ideia de que cor está meu cabelo nem de como o Ponto anda bem vestido. O último a mandar um mail fica a contar enquanto os outros se escondem! E não salva ninguém.

Os encontros tipo B são mais fáceis de descrever. A certa altura, não resisto e digo "E além disso, tenho um blogue!".

"Tens um quê?"

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O Santo Condestável?

Vai ser canonizado Nun´ Álvares Pereira? Foi um devoto, um “santo”, amigo dos pobres, fazia quase tudo o que um santo deve fazer. A questão é que ele se notabilizou por ser um general brilhante, sobretudo no combate aos “nuestros hermanos”. Aquela ideia do quadrado na batalha de Aljubarrota é notável. E copiada mais tarde por outros, como o Mouzinho de Albuquerque na defesa do Império, até pelo 7º de cavalaria, no novo mundo. Mas ele era devoto, lá isso era. E, guerreiro, combatia à espadeirada, não os “infiéis”, mas sim os vizinhos. Não combatia com palavras, era mesmo com armas. Está bem que se reformou como frei Nuno de Santa Maria, e foi para o Convento de Nossa Senhora do Carmo que fundou. “But Brutus is an honourable man”. Cada história no seu tempo, é certo, mas Santo António era mais pacifista, perdoem-me a simpatia. E o santo condestável será santo. Será? Quais os critérios de avaliação, por muita admiração que se tenha pelo “honourable man” que é, de facto, D. José Policarpo?


O Pai Itálico é mesmo Pai e é da Vírgula.

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Dilecções familiares,

A provar que o regresso coxo depois da ausência não é de família, acima, o Pai Itálico contesta a canonização do condestável, ao mesmo tempo que se denuncia na devoção. Os santos, como os clubes, propiciam afectos intraduzíveis.

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Regresso breve,

De volta, a Vírgula informa o Ponto, leitores assíduos e visitantes esporádicos que tem o tempo condicionado e escassas ideias. Mas o mais pre-ocupante (apenas porque ocupa e pede dedicação prévia, em nome de uma coerência bloguística que nunca terei ) é a suspensão dos passeios na blogosfera. Na verdade, não se tratou de uma total suspensão, mas da redução à consulta do estritamente essencial; sendo que a essência é calculada entre o hábito e a capacidade de síntese de quem posta. Cada vez é maior o volume dos blogues cuja leitura tenho em atraso, a começar, justamente, por aqueles que nunca li. Se deixo a coisa avançar, condeno-me a ficar uma semana a ler arquivos como se não houvesse amanhã para escrever.

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Pílula do dia anterior,

"Fomos às compras como se não houvesse amanhã." Ouvi recentemente esta frase, dando-me conta de uma tarde no Centro Comercial e fiquei bastante intrigada: se comprarmos tudo hoje e não houver dia seguinte, quando é que se estreiam as aquisições?

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Insónias.

Longe vão os tempos em que não controlava o sono - era (ainda mais) pequeno e andava amiúde às cavalitas do meu avô (o maior do mundo, para que se saiba) apesar de já não ter idade nem estatura que o permitissem. Se é verdade que envelhecer é regredir, então a minha terceira idade tem-se manifestado na incapacidade de me manter acordado durante uma sessão de cinema nocturna - aqui há dias, foi o novíssimo de Ang Lee, o "Hulk" (pelo pouco que vi, estou com o Mexia) e hoje a infelicidade repetiu-se, desta vez em formato DVD, com "K-Pax", a fábula de um homem mentalmente perturbado que julga ser de um outro planeta, com os sempre excelentes Jeff Bridges e Kevin Spacey.

Para que a brincadeira não se repita, prometo guardar para a noite verdadeiros shots de adrenalina cerebralmente ocos - já tenho aí na mira uns quantos "Reign Of Fire", "Equilibrium" e afins. Prometo regressar em breve, com mais relatos na primeira pessoa do Lar de Terceira Idade (se a enfermeira me deixar usar o PC, claro...).

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Casca de ovo ou bege?

Estou de férias. Não vejo o telejornal, não compro jornais e a minha maior preocupação resume-se à escolha da cor com que pinto os armários da cozinha. Invejas esparsas e ódios mortíferos, é na caixa aí de baixo ou para pontovirgula@megamail.pt.

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domingo, julho 13, 2003

Outros palcos (e mais versos da Pedreira),

Uma das razões que me tem apartado do blogue (o teu perdão, Ponto; a vossa compreensão, leitores) é o teatro. A esse propósito e na falta da veia crítica, para me redimir deixo aqui mais um poema da Maria do Rosário Pedreira, n' A Casa e o Cheiro dos Livros. E prometo pôr os postes em dia e recuperar assiduidade na semana que se segue. Para já, a poesia:

Escolheram ser outras pessoas. E, quando dizem mar,
têm olhos subitamente azuis e fazem gestos
que lembram o balanço das ondas junto ao porto.

Gritam todas as noites o que não ousariam murmurar
pela manhã na intimidade do quarto – porque na sua boca
remexem duas línguas e uma delas só a reconhecem
do espelho onde já viram desfilar todos os rostos.

Deixam-se coroar por um halo de luz branca
que os persegue e já os atraiçoou de outras vezes.
E comportam-se como pequenos deuses efémeros, sujeitos
às conspirações de uns poucos homens que podem,
com a mesma mão, oferecer-lhes a taça e o veneno
dobram-se para merecer o seu aplauso ou a sua compaixão.

Depois o pano cai. Vão para casa. E são outras pessoas.

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Um jantar nunca é de graça.

Recebi este mail de um amigo, numa tentaviva reles (e muito engraçada) de me convencer a interromper as minhas férias para ir a um jantar de antigos colegas. Não vou ao jantar, mas ri-me que nem um perdido. Um abraço para o David 8-), a razão pela qual a reunificação alemã valeu a pena.

“Há que ser racional e não desperdiçar um património amealhado com muito sacrifício só por causa de uns momentos fugazes de prazer. É essa a trama das grandes tragédias da humanidade. Madame Bovary (então a gaja é casada com um médico, bom sustento e garante de uma vida estável, e rebenta com tudo por causa de umas trocas de fluidos corporais!!?), Romeo e Julieta (que parvoíce, destruir uma competição tão saudável e secular por causa de uma bimba!), a Invencível Armada ('tava-se mesmo a ver que vinha aí uma tempestade, mas não! Nuestro hermanos estavam com pressa, é no que dá. Centenas de anos a construir um poderio naval...). E Adão e Eva, hã? Ainda lhe sobravam uma data de costelas, aquilo podia ter sido um forrobó, mas não - apetecia-lhe uma maçã...

E já agora, uma analogia bem premente: E A GUERRA DE TROIA??!! Um gajo faz com que uma civilização inteira desapareça, só porque quer molhar o pincel. Parece-te bem? Vê lá, pá! (...) Bom, não será bem assim, mas há de se arranjar qualquer coisinha lá pelas redondezas. Um arealzito (milhões e milhões de invertebrados na tua consciência), um ou dois pinheiritos (menos sítios para nidificar, portanto menos passarinhos, portanto mais insectos, portanto mosquitos, portanto malária, portanto vacinas para a malta toda, feitas à pressa e sem cuidado, portanto morremos todos). A humanidade há-de vir-te bater à porta.”

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sexta-feira, julho 11, 2003

Clássicos contemporâneos.

A conselho da Charlotte (não especialmente dirigido a mim, mas a curiosidade falou mais alto...) acabei por encontrar um video-clip (ainda se usa esta expressão?) dos Electric Six, a nova vida da banda de Detroit, The Wildbunch, video esse ilustrativo de uma canção com um nome, digamos, sui generis. "Gay Bar", é assim que se chama a pérola (o link para o dito está na Bomba Inteligente), leva-nos a ponderar temas tão profundos como os gays e os bares - não que a vontade de intelectualizar não se imponha, mas de facto a letra não nos permite voar mais alto "Gay bar, I wanna take take you to a gay bar...".

Eloquente, profundo e ideal para rodar incessantemente no imac lá da empresa e irritar aquele colega homófobo da sala ao lado.

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quinta-feira, julho 10, 2003

Ok, agora é que é.

A compra mais curiosa que fiz em Londres (para além de uma série de livros e de um insuflável com o papagaio morto do brilhante sketch dos Monthy Python) foi um "Jesus Action Figure", como anuncia a respectiva caixa. É, como o nome indica, uma sósia do Cristo que aceitámos como sendo o genuíno (barba, cabelo comprido, sensualidade latente, manto comprido e com ar andrajoso) que mexe os braços, num movimento tipicamente bíblico e messiânico, como convém. No verso da embalagem, podem ler-se alguns excertos dos melhores evangelhos (na opinião do próprio?) e os avisos de segurança costumeiros - "Apesar de ser o corpo de Cristo, evitar colocar na boca uma vez que contém pequenas peças que podem provocar asfixia".

Já está na minha prateleira dos bonecos (sim, eu sei, mas, bolas, com tanto fetiche, será este assim tão grave?), entre a "Bela" da "Bela e o Monstro" e o "Scar", o malévolo e velhaco leão do "Rei Leão". Uhn, kinky...

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É o último, prometo.

Porque mais do que três posts a falar de Londres já é considerado crime punível com pena capital em alguns países asiáticos, prometo que esta é a última referência à cidade que viu nascer a maior estrela pop de todos os tempos - tirem os Beatles da ponta da língua, falo, naturalmente, de David Beckam. Aliás, curiosamente, na capital inglesa a "beckam-mania" chegou a um extremo tal que todos os adolescentes tentam copiar o estilo (ou a falta dele) do ponta de lança do Real Madrid (com resultados muito variáveis, entre o péssimo e o "e essas cataratas, não têm mesmo cura, é..?"). Por outro lado, e com resultados ainda mais infelizes, estão as "Victoria-Posh-Spice-Beckam-Lookalikes", ou seja, as adolescentes londrinas. Barrasquita por barrasquita, venha a Marisa Cruz...

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Gralhas,

Que haja gralhas nas legendas, que haja pouco rigor, que troquem o nome das pessoas nos jornais, nas revistas, na televisão...é chato para a pessoa visada. Agora o pior de tudo é a TVI no noticiário das 20, entrevistar a deputada Maria Elisa e na legenda aparecer Edite Estrela - PSD. Será que as visadas, no fundo, terão algo em comum? Claro que sim. E diferenças também.


O Pai Itálico é mesmo pai e é da Vírgula.

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quarta-feira, julho 09, 2003

Rapidinha.

A paixão não chegou ao fim, minha querida - a desatenção deve-se única e exclusivamente ao efeito do fenómeno espacio-temporal "vai ser tão bom, não foi?". Que é quem como diz, estes dois meses passaram a correr. Venham os próximos. Bolos de aniversário, presentes envenenados e avultadas somas de dinheiro (também aceitamos traveller's checks), é para o endereço do costume: pontovirgula@megamail.pt.

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(Des)aniversário comum,

Ontem o Ponto e Vírgula fez dois meses. O Ponto esqueceu-se e a Vírgula também. Apareci hoje, com a caixa de bombons comprada na área de serviço. Será que a paixão chegou ao fim?

Este nasceu no mesmo dia que nós. Somos do mesmo signo, só isso.

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terça-feira, julho 08, 2003

A vida, tal como os carros.

"Às três da tarde, Madrid arde. Mal se consegue respirar e os termómetros garantem que estão 39 graus. Recomeçar viagem, nestas condições e sem ar condicionado, se não é suicídio anda lá próximo.", Zé Mário Silva, Blog-de-Esquerda.

Carlos Augusto era daqueles fulanos pouco recomendáveis, que se passeava em becos e vielas por onde outros temiam mas que Carlos aprendera a dominar como dominara todos aqueles que haviam caído nas suas garras. É que este Augusto de maus augúrios exercia a profissão de agiota e ganhava a vida a roubar sorrisos aos miseráveis alheios. Um dia, Augustinho Seboso, como era mais conhecido pelos incontáveis inimigos, cedeu à alcunha que lhe entupia a aorta e caiu redondo em pleno urinol público. Era mais que evidente que um homem assim só poderia ter um destino na próxima vida - um carro sem ar condicionado.

Esta pequena fábula muitíssimo mal escrita é dedicada ao meu amigo ZM e ao seu Renault Clio.

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A minha musa é o José Manuel Fernandes.

Já pensaram que, no dia em que o Público Online deixar de fornecer conteúdos gratuitos, a blogosfera nacional perde a sua maior fonte de informação e inspiração? Dá que pensar, não dá? Spooky…

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Politicamente bestial.

“Um manual de liceu propunha um texto sobre um homem cego que, sem ajuda, subiu ao cimo do monte McKinley (no Alaska, a maior montanha dos EUA). O texto foi rejeitado pelo Departamento de Educação do estado norte-americano de Nova Iorque. Os motivos: primeiro, a história era discriminatória para os deficientes - porque sugere que as pessoas com deficiências físicas têm mais dificuldade em cumprir algumas tarefas. Segundo, era-o também para as crianças que vivem em regiões planas, que ficam em desvantagem perante os alunos que têm experiência de zonas montanhosas.” In Público Online

Portanto, vejamos – uma proposta de livro escolar foi chumbada por contar a aventura heróica de um homem cego que, apesar da sua “diminuished capacity” (convém empregar o termo politicamente correcto, não vá a CIA andar a navegar pela blogosfera nacional…), conseguiu uma proeza formidável.

Por outro lado, e ainda de acordo com os detractores do tal manual, as crianças que vivem em planícies sentir-se-iam diminuídas em relação às crianças que vivem em zonas montanhosas – logo, o melhor é nem lhes falar da existência de partes do seu país ou do globo que sejam geograficamente diferentes da sua.

Inspirados pelo inovador modelo norte americano, boatos indicam a intenção da Nova Democracia em vetar todas as referências a sul do Douro nos livros escolares do Porto e arredores, assim como todas as menções a Aljubarrota nas escolas acima de Beja e, em última análise, os professores do interior devem evitar fazer referência, nas suas aulas, a uma enorme extensão de um certo líquido azul, que, nas cidades do litoral e para alguns privilegiados responde pelo nome científico de “mar”.

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Só sei que nada sei.

“Cientistas brasileiros identificaram uma nova espécie de peixe de água doce na Amazónia. A descoberta da pequena criatura fez a delícia dos zoólogos aquáticos, que não conhecem novos peixes há mais de um século. Os cientistas esperam classificar o animal até ao final deste ano.” In Público Online

Quanto mais a humanidade sabe, melhor se apercebe de que não faz a mais pálida ideia sobre a estrutura e os princípios pelos quais se rege o mundo que a acolhe. Enquanto há vida, há esperança, como diria a voz do Tiago.

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Can’t Get Enough Of Your Love, Barry.

Já lá vão uns dias, bem sei, mas a verdade é que a morte de Barry White é uma verdadeira tragédia. Durante anos, a voz aveludada e grave de Mr. White acompanhou as incursões de muitos de nós em território virgem, tornando a descoberta um pouco mais doce e genuinamente inesquecível.

Afinal, foi com Barry que aprendemos a canção do bandido, na sua forma mais pura e original, a que ainda hoje recorremos, como se não houvesse amanhã – “you’re my first, my last, my everything…”.

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segunda-feira, julho 07, 2003

Silogismos demonstrativos.

A minha analogia de eleição quando a tentar explicar a um lisboeta o clima do Porto é, e sempre foi, "Pá, é tipo Londres". Até agora, esta observação era absurda e descabida, chegando mesmo a roçar a presunção, porque o "je" nunca tinha ido a Londres. É como quem diz, "Então, a Luísa é boa na cama?" e a resposta avança com um "Pá, é como a Charlize Theron, mas um bocado mais esgroviada". Ora, como toda a gente sabe, não se pode comparar o desconhecido. Já fui a Londres, mas continuo sem saber se a Charlize Theron é boa na cama.

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João Gobern - a homenagem devida.

Uma das coisas que mais me impressionaram em terras de Sua Majestade (o meu cliché favorito no que toca à longa lista de "puns" que definem a cidade de Londres) é a qualidade média dos cafés, restaurantes, pub's e afins. O conceito de mercearia de bairro não existe - no mínimo, esta está ao nível da louja gourmet do alfacinha El Corte Ingles. Qualquer restaurante chinês parece a cantina oficial do Stanley Ho e garanto-vos que se Ghandi tivesse jantado no "Ophim", o indiano onde tive o prazer de jantar na passada sexta, nunca teria feito greve de fome. Por isso, exige-se: qualidade, originalidade, distinção, serviço, decoração nos restaurantes e cafés portugueses, já!

Para que os tipos da Nova Democracia não me caiam em cima com acusações de anti-patriotismo, reponha-se a verdade - nenhum londrino alguma vez sonhará com uns jaquinzinhos com arroz de grelos ou umas pataniscas acompanhadas pelo malandrinho arroz de feijão. E, como todos sabem, quem me tira o meu arroz de feijão, tira-me tudo.

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This is how we do it in London, Sir.

Algumas milhas aéreas, muita comida de plástico e um espaço exíguo depois, cá estou eu de regresso a este cantinho (à beira mar plantado) com um conjunto de considerações a tecer sobre o destino da minha viagem - Londres. Pelo país não nutro especial simpatia: o fundamentalismo da moeda e das medidas parece-me bacoco e despropositado numa pan-europa cada vez mais evidente. Por outro lado, as posições pró-Bush de Blair causam-me uma certa urticária - but then again, também Durão Barroso é um Lacaio do texano e nem por isso as suas posições políticas (e as do país, claro) são representativas do sentimento generalizado dos portugueses.

Apesar da minha relutância, e uma vez que fui em negócios (eheheh, soa sempre bem, não soa?), ala que se faz tarde. Bom, primeiras impressões neste post e outras soltas nos seguintes, em jeito de telegrama. Os londrinos são bimbos, mas muito simpáticos e prestáveis. Os serviços deles funcionam com um grau de profissionalismo sem precedentes (polícia, trabalhadores de metro e de museus). Não há tascas - o grau zero da pastelaria chama-se Starbucks e é DE LONGE mais higiénico, acolhedor e interessante do que 99% dos nossos estabelecimentos comerciais. O metro deles faz-nos sentir que estamos num país terceiro mundista (a nível de arquitectura e manutenção), mas a frequência de comboios e a simpatia dos condutores rapidamente o fazem esquecer. Todos os rapazes entre os 15 e os 25 anos querem ser o David Beckam. Todas as raparigas da mesma idade querem ser a Victoria Beckam. Londres é, isso sim, a capital europeia do comércio. Ou seja, tudo funciona (muitíssimo bem) mas nada impressiona. Ou quase nada, mas a isso já lá vamos.

O título do post refere-se à forma como o concierge do hotel onde fiquei justificou a obrigatoriedade de pagar a totalidade da conta no momento do check-in. To be continued...

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domingo, julho 06, 2003

Postes póstumos,

A melhor homenagem (e a única que encontrei) postada a Augusto Abelaira veio de Nova Iorque e está aqui.

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Dar é agoiro,

Não, não é um romance popular, não é uma conversa numa zona rural. É uma conversa que ouvi, num pequeníssimo café com duas mesas redondas, tipo anos cinquenta, de madeira coberta de vidro grosso. Numa vila periférica de Lisboa, não me apetece dizer o nome, do mesmo modo que não divulgo muito os restaurantes com interesse suplementar, de secreta super relação qualidade preço. Ali, no cafezinho, nasciam histórias destas, afinal. E como quero lá voltar...talvez o blog abrigue cenas destas:

Com pragas e dinheiro é que eu me governo, dizia ela. Aquela mulher morreu rica, deixou muito, para quê? morreu desfeita, sem dedos dos pés. Dar não era com ela. Dar é agoiro, dizia. Tinha sempre toucinho na salgadeira, volta e meia matava um porco. Mas quando ia para guardar o toucinho novo, mandava enterrar o toucinho velho. Que dava azar, não era bom. E a minha mãe, com nove filhos e com fome é que tinha de enterrar o toucinho. Chorava muito, ao fazer aquilo. Porque a velha ia atrás dela para ver se ela enterrava o toucinho, e então a minha mãe não podia ficar com ele. Dá agoiro guardar o toucinho antigo, dizia. Com o pão era a mesma coisa. O pão que sobrava não o dava a ninguém, ia para a burra, e às vezes o pão ainda estava de se comer. E a velha sempre atrás da minha mãe, a ver se o pão ia para a burra. A minha mãe até podia esconder o pão por ali, entre as pedras, num muro, e podia dá-lo aos filhos, nove. Mas não o fazia, porque a velha vigiava sempre. E com a roupa usada era a mesma coisa. Naquele tempo, em que não havia dinheiro para nada!? A roupa tinha de ser queimada no forno onde se cozia o pão, ela também vigiava. Era assim, dar é agoiro. Lá morreu, deixou muito de seu.
Pai Itálico.

O Pai Itálico é mesmo pai e é da Vírgula.

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sábado, julho 05, 2003

Um terço,

Isto dos blogues estarem todos lincados tem as suas vantagens. Eles já diziam isso em coro e ela di-lo agora a solo. Segui a pista da tradução simultanea e descobri que uma terça parte da extinta psicossomática escreve post(ai)s aqui. Nem sempre concordo com o conteúdo da correspondência (ainda bem!), mas tornou-se uma paragem obrigatória nos passeios da Vírgula. Mais séria, mais académica, mais clara, a Susana não gasta o espelho e oferece dos melhores postes para analisar a blogosfera e não só. Contribui acima de tudo com reflexões diferentes, interessantes uma vez que trazem pontos de vista novos e devidamente fundamentados, numa conciliação cada vez mais rara (no Ponto e Vírgula gostávamos de conseguir pelo menos uma das duas coisas, diz esta metade). Como conclui sempre uma amiga minha, não vão os ouvintes pensar o contrário: "é a minha opinião". Mais Sherry Turkle, por favor — é o meu pedido.

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sexta-feira, julho 04, 2003

Rasgado elogio,

Dois dias sem ouvir a voz e eis que, quando que quando chego, se apresenta no seu melhor: das considerações acerca da verdadeira liberdade no matrimónio, ao linque em busca do consolo junto de Kierkegaard, passando pelos pensamentos durante a oração e pelo Quarteto 1111.

Quem diria que eu havia de louvar a expressão das ideias do Tiago?

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Poste com versos,

Encantei-me por este poema pela estrofe entre parêntesis. Leia-se a pensar nos compartimentos do Interregional. Os suburbanos de hoje já não são o que eram há cinco anos atrás. (Felizmente.)

APOSTILA,

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Milton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.


Álvaro de Campos

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Sabedoria popular e iogurtes,

Serve este poste para informar que de ora em diante a Vírgula comentará nas caixinhas com provérbios. Se o seu comentário não tiver resposta é porque ainda ando à procura do adágio certo (com pedaços).

Este poste foi pré-patrocinado. Primeiro nós lincamos, depois vocês enviam os iogurtes.

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quinta-feira, julho 03, 2003

Poste aéreo,

No ar: é onde o Ponto está neste momento. E de novo estará no Domingo, no regresso aqui ao rectângulo. A Vírgula não. Tenho os pés bem assentes na terra, os dedos no teclado e os olhos postos na blogosfera; fico por cá (a apanhar do ar).

Quer tudo isto de dizer que toma conta aqui do canto sou eu. O que também quer dizer que, dado o grau de autonomia que o blogger me concede, os postes poderão rarear. Enfim, descanso aos leitores, que merecem mais do que nós.

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Toda a verdade.

Ontem escrevi por aqui que o Statler, um dos fundadores do trio odemira que toca lá por bandas da beira interior, andava a arrastar a asa para os lados da Vírgula. Sob ameaça de o próprio ficar queimado e de ver a sua reputação enquanto futuro D. Juan da blogosfera posta em causa (mesmo antes de estabelecida), reponho aqui toda a verdade, ilibando o marreta de qualquer acto de sedução. É que, como ambos sabemos, se de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento, de França, o caso muda completamente de figura.

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quarta-feira, julho 02, 2003

O apocalipse.

O meu pai cita Mexia. O mundo está perdido.

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Maus hábitos.

“Economia entra em recessão e desemprego vai crescer.”, in Público Online.

Acho muito bem, que a malta já estava a habituar-se a este ritmo descrecente do nível de vida. O Salário mínimo em Moçambique, há um par de anos atrás, andava à volta dos dezoito contos – estamos no bom caminho, meus amigos, estamos no bom caminho.

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Uma questão de prioridades.

Diz-nos o Público Online de hoje que, de acordo com uma equipa de investigadores da Arábia Saudita, os bancos caseiros de esperma são possíveis. Ora esta descoberta revolucionária, ao nível do recente desenvolvimento da melancia sem caroços, levanta uma série de questões de ordem moral, ética e até higiénica. Agora, de acordo com estes cientistas, já “(…)é possível armazenar esperma em casa, secá-lo ao ar, como quem seca as meias, e depois usá-lo sem que perca as suas características essenciais”. Tudo isto é absolutamente fascinante, mas a grande questão, neste momento, é – onde é que está uma boa dose de napalm quando precisamos dela?

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Sem comentários,

Não é só este blogue que me leva a dizer isto: o enetation é mentiroso, discriminatório e cobarde — desde o novo blogger que raramente se dá a ver pelo Macintosh e a contagem dos comentários nunca corresponde à realidade. Boicote?

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Serviços domésticos,

Aqui há tempos dizia um amigo meu, com muita piada e muita razão (e não era o Ponto), que as jovens licenciadas, quanto ao emprego, são muitas vezes mulheres-a-dias de luxo. (Os jovens licenciados também, mas soa melhor assim.) Realmente, transcrever cassetes áudio é como passar a ferro para fora. Com a agravante de não me ir lembrando de postes, durante o pára-arranca do gravador.

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Carteiro,

À l'heure d'Internet la carte postale fait de la résistance.

(Chegou esta mensagem à minha caixa do correio – a outra, a que precisa que se gire a chave para abrir – e trazia selo.)

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Codrilhices.

Eu não sou de intrigas, mas quer-me parecer que o Statler anda a arrastar a asa por aqui. E, não leves a mal, amigo marreta, mas não fazes mesmo o meu género. Eu é mais bailarinos de dança contemporânea e barmen do Lux - é mais neo.

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Breaking news.

As pessoas estão a deixar de ler jornais, optando por saciar a sua sede de informação (e formação) na blogosfera, com o argumento de que esta oferece pontos de vista alernativos, interessantíssimos e, sobretudo, muitíssimo bem escritos.

Seremos nós o futuro dos media? A resposta a esta e outras questões da actualidade, neste momento, num blog perto de si.

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A(s) pólvora(s).

Se não fosse a blogosfera, não faria ideia do número de pessoas interessantes de direita que por aí andam. Quanto à orientação política, rapaziada, isso resolve-se com uma visita relâmpago a Bagdade e aos arquivos da CIA. É limpinho.

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Idiossincrasias.

Ora aí está uma palavra que, tal como o seu significado, não pode ser substituída por nenhuma outra. E não é por falta de sinónimos, que a nossa língua, como Almada Negreiros a apregoava, é redonda, suave, enrola-se na boca como uma colher de Haagen Dazs de Strawberry Cheesecake.

Ser idiossincrático, arrisco, é ser. Por isso, quando me lançam, em tom de insulto com filtro, “tu e as tuas idiossincrasias”, nem imaginam o que a minha alma se ri por dentro – é uma garantia de identidade, um selo de certificado de autenticidade, um “made in myself” muito próprio, uma dádiva do "eu".

Agora perdoem-me a abrupta retirada (JPP everywhere…), mas acabaram-se-me os lápis nº3 e deus sabe como me recuso a escrever com qualquer outra espessura de grafite.

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A urgência da escrita.

Escrevo como forma de sobrevivência ou sobrevivo porque escrevo?

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