A pontuar desde 2003.

sábado, setembro 27, 2003

Os empreiteiros das letras.

Passeio pela Bertrand e, na prateleira dos livros "fast food" (quase todos da Oficina do Livro), ombro a ombro com referências obrigatórias da literatura moderna portuguesa ("Socialíssimo", de Paula Bobone, só para citar um), deparo-me com o best-seller do capítulo "As Coisas No Emprego Não Estão Famosas, Vou Comprar Esta Merda Para Ver Se Não Me Despedem", "Quem Mexeu No Meu Queijo?". Acontece que, meia dúzia de livros mais à frente, deparamo-nos com a inevitável sequela "Fui Eu Que Mexi No Teu Queijo". Ora, quando é que os livros começaram a adoptar este esquema de resposta no título? Espera-se para breve um "Mas Porque É Que Mexeste No Raio Do Queijo?", com a não menos ansiada resposta, "Porque Gosto De Roquefort E O Que Tinha Lá Em Casa Acabou-se".

Se a moda pega, esperam-nos pérolas do calibre de "É De Soalho Flutuante" (o sucessor de uma das últimas obras de Salman Rushdie, "O Chão Que Ela Pisa"), "Foi Por Isso Que Lambi A Relva" (a esperada sequela de "Meu Amor Era De Noite", de Vasco Graça Moura) ou mesmo "Sobretudo Quando Vamos À Bica Do Sapato" (a continuação do delicioso "Um Almoço Nunca É De Graça", de David Lodge). Oficina do Livro, vocês desculpem lá, mas estas têm direitos de autor.

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Rentrée paterna,

O blog é este jogo entre as coisinhas de dentro e as coisinhas de fora. Mas continuem a animar o Ponto e Vírgula com as coisinhas de fora filtradas pelas coisinhas de dentro. Por exemplo, falem da reforma da liturgia católica, que já não quer embarcar nas festas IURD style. Prefere retomar a sacralização dos rituais tradicionais, mais austeros, demarcar o seu espaço com um estilo. Como de resto, devem fazer os blogs. Acho que a língua portuguesa entrou em decadência quando acabaram com a missa em latim da minha infância. Se calhar um mal maior que o Grande Irmão (em inglês, Big Brother.)


O Pai Itálico é mesmo Pai e é da Vírgula.

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sexta-feira, setembro 26, 2003

Género ao balcão,

Se um homem e uma mulher igualmente esbeltos pedirem "dois cafés, um com adoçante", a quem é entregue o pacote de açúcar?

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quinta-feira, setembro 25, 2003

O que sabem as minhas colunas,

Ligo o amplificador, ligo o leitor de cd. E nada. Muitos minutos depois, às vezes já na nona faixa, descubro que não ouvi nada porque me esqueci de rodar o botão do volume. E sobre isto, o que dizem os livros?

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Allô, Dr. Freud?

Esta noite sonhei que a minha mãe criava um blogue. Impulso que eu louvaria com gosto se o template não fosse igual ao do Ponto e Vírgula e a senhora não terminasse o título dos postes com uma vírgula. O que dizem os livros?

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Meter conversa,

No Secundário, ou mesmo antes, conhecia-se muita gente. Nem sempre eram amigos, a maior parte era só amigos de amigos, outras vezes vizinhos ou alguém que partilhava o mesmo trajecto connosco. Havia uns, que me irritavam especialmente, que se incomodavam com os silêncios e, previsíveis, quebravam-nos sempre com a mesma pergunta: “o que é que vais ter agora?” Formulava-se também a variante do regresso a casa: “que aulas é que tiveste hoje?”

Com as novas tecnologias, esta espécie de contacto não desapareceu. Mas se no mail é fácil ignorar os forwards pesadíssimos com piadas desinteressantes, a dificuldade reside no telemóvel. É que depois da ingenuidade dos dezasseis anos custa muito mais dizer “não me apetece falar contigo”. Preocupamo-nos mais com o que os outros sentem ou receamos, um dia, sermos nós os autores da conversa sem tópico?

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Fiuuuuuu fiuuuu,

Lembro-me de ter escrito isso quando tudo começou, mas se calhar é bom
recordá-lo ao Ponto e aos leitores.”A Vírgula não procurará esconder a sua incultura televisiva, mas assobiará para o ar sempre que houver referências a séries de culto que desconhece (quase todas).”

Neste blogue, dá-se ao assobio o devido uso.

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quarta-feira, setembro 24, 2003

Participação de um humano nos sinais.

Gosto de acreditar que algum dia nos vamos rir disto tudo e perceber que valeu a pena, se não a escrita de patacoadas, pelo menos o podermos partilhar com mais cinco loucos estas linhas. acreditando nesta premissa o meu silogismo requer um fim pouco criativo mas em tudo sincero: "Os Loucos têm nomes de sinais gramaticais. Sou grande amigo de um ponto. Sou Louco?"


O Pedro Sadio é mesmo sadio, é amigo do Ponto e é absolutamente louco.

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No dia em que conheci o riso - I.

Pegando no mote lançado pela Bomba , discorro em seguida sobre as minhas séries cómicas (vulgo "sitcoms") de eleição. Nestas coisas do pequeno ecrã, confesso ser muito menos selectivo do que no outro e assim dou por mim, n vezes, a deixar-me estupidificar em frente à caixinha colorida, como se tivesse seis anos (sim, babando-me ocasionalmente). Ainda assim, tenho aquela capacidade tão humana e racional a que dão o nome de "livre arbítrio" e, de quando em quando, opto por exercer o meu direito ao próprio.

Em tempos idos, o Alf era o rei dos meus serões. Aquela criatura de um planeta distante com tanto de cómico como de carinhoso encantava-me de uma forma anormal (ok, os sete estômagos ajudavam). Entretanto, cresci e deixei-me contagiar pelas cassetes BETA que o meu pai guardava lá por casa (sim, era ostracizado na escola por ser o único miúdo com BETA em vez de VHS - enfim, pai, já te perdooei) do Monty Python Flying Circus . Foi então que decobri uma nova dimensão de humor, tão distante do Nicolau, do Solnado ou dos "Gente Gira" que ocupavam o canal estatal nos domingos à tarde. Foi com os sketchs do papagaio morto, dos "funny walks" e do homem com um gravador incorporado no nariz que me deitei sopa e sumo do nariz pela primeira vez, à custa de tanto me rir. Lição aprendida: desde então, nunca mais ingeri nenhum líquido enquanto vejo os Python, quer as séries, quer os filmes.

Ainda graças às BETA do meu pai, descobri uma outra pérola, um momento de génio da reponsabilidade de John Cleese e companhia, os Fawlty Towers . Já lá vão uns bons 12 anos e ainda me recordo como se fosse hoje de uma cena em que Basil Fawlty, Cleese, o dono do hotel, chama "burro" ao empregado espanhol, Manuel, assim mesmo, convencido que o estava a insultar. Na cena seguinte, o subserviente (e muito idiota) Manuel traz-lhe uma embalagem de manteiga, para desespero de Basil, que insiste em chamar-lhe "burro", ao que Manuel responde "si, señor, burro, aqui". Contado não tem um décimo da piada, mas visto é de génio, aliás como todos os espisódios da série, que devorei religiosamente.

Sobre o Black Adder e outras séries mais recentes, falamos na parte II (ou III, quem sabe), que o post já vai longo. Até lá, riam muito, despudoradamente, sempre que possam, até que a sopa vos salte do nariz.

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"Isso é giro, põe no blog!"

Pois é. Desde que embarquei nestas andaças da blogosfera, deixei de ter direito a ter piada em privado. Qualquer desabafo com um tom vagamente cómico, crítico ou cáustico é imediatamente interrompido com um "isso é giro, põe no blog!". Ok, fico muitíssimo satisfeito em saber que, aqui e acolá, vou tendo alguma graçola. Mas a verdade é que eu gosto de pensar que tenho uma vida para lá (e para além) do Ponto e Vírgula. E, nessa vida, há alguns momentos que fazem sentido per si e que não podem ser replicados, correndo o risco (mais que provável) de perderem o efeito inicial. Tudo isto para dizer: há coisas que cabem no blog e há outras que não. E a essas, vou sugar-lhes o tutano.

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Diga 33, por favor.

Para quê gastar fortunas em análise quando se tem uma Dra. Charlotte Freud só para nós?

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terça-feira, setembro 23, 2003

Sobre Carris,

Maior aderente do dia sem carros em Lisboa (eu só dei pela efeméride quando tentei picar um bilhete no autocarro e o condutor resmungou sem olhar para mim "hoje não é preciso"), a Carris afirma nos seus veículos que anda há 131 anos a promover a leitura.

Tenho o L desde os 10 anos e desde então que leio nas paragens, nos autocarros, ao pequeno-almoço e às escondidas. Desejei-o várias vezes, de capítulo adiado na mochila, mas não me lembro de alguma vez ter chegado a ver na plaquinha dos lugares reservados (em último, é justo) um ícone de leitor. Semprei achei que a promoção da leitura nos autocarros não devia passar só pelos versos nas costas do condutor e há anos que pensava na melhor forma de sugerir medidas de descriminação positiva que dessem aos leitores, em situação física equivalente a outros passageiros, a prioridade no acesso aos lugares sentados.

Mas não era preciso. Hoje percebi não era preciso ter dito nada: a Carris pensava já nos hábitos dos utentes e, enquanto protegia a minha retina dos malefícios da leitura em balanço, oferecia-me longos minutos de espera a que correspondiam muitas, muitas páginas de fruição literária. Obrigada.

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A idade adulta segue dentro de momentos.

Há tempos alguém levantava a questão dos "nicks" e da identidade na blogosfera - até que ponto é que é correcto levantar questões polémicas, mencionar nomes, situações, fazendo tudo isto protegido pela imunidade do meu "nome de guerra"? Sem querer responder a uma questão complicada e que merece uma análise muitíssimo mais profunda, relembro antes a velha questão das alcunhas de bairro.

Quem é que nunca teve no grupo de amigos (a ordem dos nomes é comutativa) um china, um gordo, um quatro-olhos ou um rodas? As alcunhas são fenómenos curiosos e têm origens variadas. As mais comuns são as características físicas mais evidentes do visado exponenciadas pelo grau de maldade do "alcunhador". Assim, quem tinha óculos era o quatro-olhos ou vidrinhos, aqueles cujos pais eram calvos eram automaticamente rotulados de carecas e quem tinha os pés de um Hobbit perdia o nome próprio em detrimento de pérolas como patas ou 44 (hipoteticamente, claro).

Agora que já não estamos no bairro (no sentido adolescente que o termo comporta), as alcunhas cairam, as características físicas foram-se dissipando (ou fomos aprendendo a viver com elas) e somos sempre tratados pelo nome cristão ou apelido, convenientemente precedido do grau académico de direito. Curiosamente, e ao contrário daquilo que sempre pensei, nenhum "Dr. Freitas" me soará algum dia tão genuíno e carinhoso como a prova involuntária de amizade escondida por detrás de um "ó Patas, passa a bola, pá!".

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Explicações de português.

"Associação Portuguesa de Deficientes critica Governo", diz-nos o público online. Pleonasmo ou auto-crítica, digo eu.

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segunda-feira, setembro 22, 2003

Blogue sem razões,

Encontrei-os, aos motivos. Vou postando aqui precisamente porque este é um blogue de coração, muito mais do que de razão. É verdade que deixei aqui, há uns meses, nas primeiras intenções, a vontade de escrever num blogue sério (o que também podia ser uma maneira pouco assumida de dizer "escrever a sério num blogue"). É igualmente verdade que acrescentei, logo a seguir, que não seríamos capazes dessa proeza aqui no Ponto e Vírgula (de nenhuma das duas). Na semana passada, numa crise adolescente, à procura de uma identidade, perguntei-me (e ao Ponto) porque mantemos aqui a barraca. No silêncio ouve-se melhor o que não há para dizer. O tempo (quase suspenso, porque na blogosfera voa) fez os motivos mais claros, evidentes. Há muito pouca razão em tudo isto: é puro divertimento irracional, um lugar para assentar ideias soltas, registar o que anda para aí afixado nas ruas em placas insólitas.

Vírgula elucidada das razões do seu blogar é Vírgula motivada para postar. Convidamos a que fechem a janela os que desprezam os delírios foleiros do Ponto e as rimas involuntárias da Vírgula. Preparem-se os leitores para mais uma temporada - por aqui, continuamos postar mesmo sem rede.

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Avestruz,

Às vezes, quando tenho dúvidas, não ponho o dedo no ar, ponho a cabeça debaixo dos cobertores.

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Music is my bag.

Quando era puto (portanto, a semana passada) recortei de uma revista uma ilustração que dizia, sobre fundo neutro, "music is my bag". E como era mesmo, guardei este pedaço de papel rasgado numa caixa de "recuerdos" que por lá tenho, até hoje.

Há coisa de mês e meio, um amigo meu, jovem aprendiz do contrabaixo (um instrumento maneirito, bestial para levar para acampamentos de escuteiros), comprou uma carrinha familiar. Sendo ele solteiro e estando no início de vida, interroguei-o sobre o motivo da escolha. Diz ele: "é para poder transportar o bacalhau (petit nom do próprio, por razões óbvias)". Afinal, "music is not my bag". É a dele.

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Acabou-se o granel.

Passada a febre passageira que afectou este vosso servo, há que fazer o balanço da tempestade, enterrar os mortos, louvar os sobreviventes e soltar as amarras, que em frente é que é o caminho (estou a treinar para o inter-blogs de metáforas manhosas…). Ficam as certezas.

1. O post anterior é, de facto, de um grau de "foleirice" atroz. Só o livro de estilo do bloguista é que me impede de o apagar. Além disso, a do baloiço e da embriaguez parece ter surtido os seus efeitos.

2. Os comentários no post "Por um fio" foram um bálsamo para estes dedos cansados. Como diz o Zé Mário, a "manobra de marketing" parece ter dado os seus frutos. Agora vamos lá esperar pelos resultados da campanha…

3. O Ponto e Vírgula têm leitores atentos, críticos e, sobretudo, muito fiéis. E isso, para mim, é motivo mais que suficiente para continuar nestas aventuras.

4. A Vírgula continua a ter posts belissimamente escritos, com uma capacidade de observação do invisível e uma poesia dissimulada para escrever e o Ponto continua a ter muitos disparates para destilar. Enquanto assim for, continuamos por cá.

5. Escrever não é uma opção.

Um forte abraço a todos. Mais disparates e lirismos, já a seguir.

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sexta-feira, setembro 19, 2003

Post muito, muito foleiro.

Está tudo aí em cima, no título. É para a desgraça, é para a desgraça. Agora que estou zangado com esta história dos blogs é que vou publicar uma lista com um centésimo dos milhões de supresas que a vida nos reserva, todos os dias, a toda a hora, ao virar da esquina e que a tornam tão deliciosamente interessante de viver. Aviso à navegação: algumas delas não subscrevo completamente, mas há outras que são bastante foleiras, as quais assino por baixo, sem reservas. Ora bolas, estalou-se-me o verniz.

- Apaixonarmo-nos.
- Rir com tanta vontade, que as bochechas ficam a doer.
- Um duche quente no inverno e um gelado no verão.
- Receber correio (mesmo as contas e o unibanco).
- Ouvir a nossa música favorita na rádio.
- Ficar na cama a ouvir a chuva a cair lá fora.
- Batidos de morango.
- Um telefonema de longa distância.
- Um banho de espuma.
- Gargalhar.
- Conversar.
- A praia no inverno, com o mar revolto, um casaco polar e um areal imenso só por nossa conta.
- Rirmo-nos de nós próprios.
- Telefonemas à meia-noite que duram horas.
- Rir por razão nenhuma.
- Ouvir alguém dizer que somos maravilhosos.
- Rir de algo que só nós sabemos.
- Amigos.
- Acordar e ver que ainda temos algumas horas para poder dormir.
- Fazer novos amigos ou passar tempo com amigos antigos.
- Alguém brincar com o nosso cabelo.
- Sonhos bons.
- Chocolate quente.
- Brincar nos baloiços (bêbedo tem incomparavelmente mais piada).
- Letras de músicas nas capas dos CD’s, para podermos acompanhá-las sem nos sentirmos estúpidos.
- Sentir borboletas no estômago de cada vez que vemos “aquela” pessoa.
- Ver sorrisos e ouvir gargalhadas dos nossos amigos.
- Segurar a mão de alguém de quem gostamos.
- Encontrar um velho amigo e perceber que algumas coisas (boas ou más) nunca mudam.
- Descobrir que o amor é incondicional e mais forte do que o tempo.
- Abraçar a pessoa que amamos com uma intensidade que só o amor conhece.
- Observar a cara de alguém de quem gostamos enquanto abrem uma prenda muito ansiada.
- Ver o nascer e o pôr-do-sol (esta, sim, é assustadora).
- Olhar alguém nos olhos e ver muito mais do que o que está à superfície.

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Por um fio.

Com tantos (e tão recomendáveis) blogs a despontar todos os dias no nosso ciberespaço, cada vez mais me questiono sobre o espaço que o Ponto e Vírgula ocupa nesse universo. Será que ainda fazemos sentido ou será que deveríamos deixar espaço para os bloguistas que têm declaradamente algo de interessante a dizer se poderem mover livremente? Indo mais longe, não seremos nós uns "empata-blogs"?

Este é obviamente um "mea culpa" muito "mea", sem Vírgula. Mas a verdade é que, todos os dias, quando o explorer abre a home page no Ponto e Vírgula, solto um suspiro enrolado com meia dúzia de palavras "... para quê?".

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quinta-feira, setembro 18, 2003

Confissões de adolescente II.

Afinal, o FMI informa que o 1% previsto pelos analistas portugueses é uma análise pessimista - dizem eles que a nossa economia vai crescer não 1%, mas 1,6%. Quer-me parecer, dado o paternalismo da atitude e a necessidade de um estímulo externo, que o FMI está a dar uma de Viagra.

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quarta-feira, setembro 17, 2003

A Pedra Filosofal.

Sou católico, amigo do meu amigo, bom samaritano e, bolas, até reciclo. Mas há alturas em que me apetece mandar tudo às urtigas e recorrer a uma boa dose de napalm. Vem esta dissertação a propósito da palavra "alquimista" e da única leitura que dela consigo fazer - a do título de um livro do pseudo-escritor (charlatão, diria o Zé Mário Branco) brasileiro Paulo Coelho (é aqui que entra o napalm, portanto).

Acontece que ali para os lados da Sé, no edifício em que funciona o ARCO, abriu um novo espaço que dá pelo nome de Santiago Alquimista. Ele é stand-up comedy, concertos e workshops vários, num recinto fabuloso e muitíssimo acolhedor. No próximo sábado, 20, passam por lá os Coldfinger. E o Ponto também. Vemo-nos lá?

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Confissões de adolescente.

A economia portuguesa não deverá crescer mais do que 1% este ano, anunciam os orgãos de comunicação social. Parece-me a mim, perante o grau de crescimento anunciado e a nítida imaturidade deste governo, que estamos perante um clássico caso de ejaculação precoce.

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terça-feira, setembro 16, 2003

Idade do siso II,

Numa conversa virtual apanho, mais uma vez, com o balde de água gelada de que me divirto pouco e sou muito séria. Lembro-me dos meus pequenos passatempos privados, lembro-me de longas noites de conversa e riso descontextualizado ou a pretexto do melhor humor (alheio, sempre alheio). Bolas, eu até posso ser séria, mas a Vírgula não é de certeza.

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Idade do siso,

O empregado de verão da papelaria não devia passar disso e, no meu regresso, não estava lá com a habitual delicadeza. Estava outro, mais velho, provavelmente o dono. Recebeu-me com um "Bom dia. Diz lá.". Quando pedi o DN, confundiu-o com um SG ("Qual?") e, esclarecido o equívoco, corrigiu, quase envergonhado, a segunda pessoa directa.

Dirigi-me ao café, jornal debaixo do braço, uma dúvida sem resposta: comprar um jornal diário faz de nós menos adolescentes ou quem lê todos os dias merece tratamento especial?

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domingo, setembro 14, 2003

Descida aos infernos (parte II).

Os incêndios de verão pregaram-nos uma partida e voltaram a atacar. É como diz o Veríssimo, "Deus não dorme... mas cochila".

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O nazi dos trocos.

Há um episódio fabuloso do Seinfeld, o favorito de muitos fãs, que nos conta as peripécias dos quatro magníficos na tentativa de comerem a melhor sopa de Nova Iorque. O dito dá pelo nome de "Soup Nazi" e, depois de visto, o epíteto é completamente justificado. Calha que cá na rua tenho não um "nazi das sopas" mas antes um "nazi dos trocos". Depois de muitas idas à segunda papelaria do bairro (a de eleição fecha cedo...), sempre a ouvir a boquinha do "tsss..não tenho troco para isto, amigo...", um dia o verniz estalou e a coisa entrou em conflito aberto:

Nazi dos trocos (depois de receber uma nota de 10 para pagar o jornal): "Ouça lá, acha que eu tenho troco para isto?"
Eu: "Diga-me uma coisa, se nunca tem trocos, porque é que não passa no banco e se abastece?"
Nazi dos trocos: "Você vem cá há uns meses e paga-me sempre com notas altas, também só pode estar a gozar comigo!"
Eu: "Você tem que ter trocos para dar às pessoas!"
Nazi dos trocos: "E você entra aqui, nem bom dia diz às pessoas!"
Eu: "Desculpe?"
Nazi dos trocos: "Olhe, saia-me da frente, saia-me da loja, já não lhe vendo o jornal, saia daqui!"
Eu: "Olhe que francamente..."


Resumindo: boicote, muitos domingos sem jornal e a sensação de que há pessoas que, quando a noite cai e o silêncio se instala, têm mais dificuldade em adormecer que outras.

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Estranha-se e depois entranha-se.

Pela enésima vez nos últimos tempos fui comprar o Público à tabacaria do costume, a uma hora pouco católica, e o sacana estava esgotado. Primeira coisa que me vem à cabeça: "porra, lá vou ter que comprar o DN...", segunda: "também não vale a pena desesperar, bolas!", terceira: "é uma da tarde e o melhor diário português está esgotado, sem oferecer talheres de prata nem sapatos de porcelana em miniatura", quarto e último pensamento: "parece que vou mesmo ter que me contentar com o online...".

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sexta-feira, setembro 12, 2003

Noites extra,

Se gostava que fosse revista a legislação sobre a venda de medicamentos sem receita médica, não é (apenas) porque me incomoda o dinheiro que as farmacêuticas fazem à conta das nossas dores. Tanto dinheiro que permite que se pague, e muito bem, a indivíduos que, não sendo formados em Medicina ou Bioquímica, têm como função convencer alguém que sabe mais do que eles da mais-valia de um entre dois compostos iguais.

O que eu queria era que as lojas de conveniência, entre o vinho tinto e os packs de cerveja, alinhassem as embalagens cilíndricas dessa engenhosa mistura de vitamina C com cafeína que é Guronsan.

(O delegado de proganda da área da Vírgula tem trabalhado bem, está visto.)

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quinta-feira, setembro 11, 2003

Buraco negro doméstico,

É uma característica dos quartos que tenho habitado ao longo da vida. Não se vê a olho nu, mas eu acredito que todos têm em comum a inclinação do chão para um dos cantos. Todos os quartos onde dormi até agora enclinam-se ligeiramente para uma das esquinas. Aí, no chão, tão imperceptível quanto o desnível do solo, só pode estar um pequeno buraco. Para lá, devem ter rolado, com um ruído mínimo, os meus óculos azuis; um conjunto suplente das chaves de uma casa vazia (num porta-chaves da Expo 98); um casaco de malha de riscas coloridas; umas sandálias de couro; uma caixa de cd ("Blues Moods of Spain"); um livro sobre Pragmática da Comunicação; o DN de ontem; e todas as coisas que ainda não sei que perdi.

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Pagava para ver,

Tenho quase a certeza de que fui reconhecida. Do lado de dentro do balcão, o funcionário da Fnac foi peremptório e tinha brio no colete: "Estes filmes deram entrada para o serviço 48 horas, ainda não passaram. Se as fotografias já estiverem prontas, terá que pagar o preço para o serviço 24 horas". Não valia a pena argumentar que não era um preço justo, visto terem passado precisamente 31 horas sobre a entrega dos rolos. Tenho quase a certeza de que o funcionário percebeu que eu era a Vírgula e que a Fnac Colombo teria em seu poder as imagens de Paris. Ah, Paris...

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Uma questão pertinente.

Das inúmeras discussões profundamente metafísicas em que tenho a sorte de participar no local de trabalho, a última é, de facto, uma das mais pertinentes. Recordava-me um colega que, quando adolescente, tinha nas paredes do seu quarto um santuário dedicado à deusa (na época) Samantha Fox - é então que se erguem as primeiras vozes de protesto: Samantha Fox ou Sabrina? Sim, que é certo e sabido que nutrir afectos profundas por ambas está para as memórias de adolescência como a Zita Seabra para a vida política - é de uma incoerência atroz.

A discussão terminou em impasse, com detractores e defensores de ambas as virtudes de ambas as candidatas, com uma clara vantagem para Samanta Fox, um pouco minimizada pela recente notícia da orientação sexual da "cantora"(aspas mais que deliberadas). Agora, se me desculpam, tenho de interromper este post - é que alguém precisa de defender os pézinhos de coentrada numa luta injusta contra a altamente sobrevalorizada mão de vaca.

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quarta-feira, setembro 10, 2003

Branco mais branco não há.

Há dias em que gostava de conseguir fazer como o senhor do anúncio da Persil – esgueirar-me para o interior das coisas, observar de perto a sua composição e remover aquela sujidade que se entranhou e teima em não sair.

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Post absolutamente desnecessário.

Apetece-me escrever um post parvo, desprovido de sentido, de profundidade, em suma, apetece-me avacalhar. Será que é isso que tenho andado a fazer e não dei por ela?

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Memórias avulsas.

Um dos meus maiores desgostos é a minha incapacidade para recordar, com a vividez merecida, os momentos maiores que por mim passaram (daí a minha paixão pela fotografia, esse precioso auxiliar de memórias perdidas). Por exemplo: não tenho uma única recordação anterior aos cinco anos, altura em que parti a cabeça pela primeira vez (viriam a seguir-se mais uma dúzia…). Daí até aos doze, são meia dúzia de instantes difusos, espalhados pelo caos espacio-temporal que é a minha memória. Daí até hoje, são mais frequentes as recordações mas, talvez numa tentativa desesperada de as preservar, baralhei e voltei a dar, misturando locais, companheiros, acontecimentos, datas e as emoções que nelas embarcam.

Let’s look on the bright side: em vez de uma, vivi milhares de vidas, colagens de instantes que, quando reunidos num frame só, me fazem fechar os olhos e esboçar um sorriso a que só os tolos têm direito.

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Problemas etimológicos.

Uma pneumonia que se diz “atípica” não deveria fazer juz ao nome e manifestar-se só uma meia dúzia de vezes? É que, com tanta reincidência, já se justificava pensar numa designação mais adequada - pneumonia “crónica”, por exemplo.

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The sweetest thing.

A partir do último dia 27 de Agosto, a Vírgula ficou um ano mais velha que o Ponto. Esta discrepância nas idades traduz-se numa proporção aritmeticamente inversa no que toca ao juízo, responsabilidade, memória e capacidade literária.
No entanto, e sendo eu um ?cafageste? e um ?sem vergonha? da pior espécie (que saudades do ?Roque Santeiro?? ah, diacho! Isso sim era uma escola de línguas!), recuso-me a deixar a Vírgula por aqui a virgular sozinha, aumentando consideravelmente a qualidade média das coisas que por cá se lêem. Antes reafirmo o meu papel da outra face da moeda, a que não escolhemos mas que nos calha na rifa em 50% das vezes. Não estou a ?calimerar? (terei inventado um verbo? que abuso da minha parte..!), estou antes a fazer um ?mea culpa? público pela culpa inteira que sinto em privado.
O Bono fez uma canção, eu escrevi um post enigmático. É praticamente ela por ela.

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Mapa riscado,

Pegou no filho ao colo e a conversa, a mim, pareceu-me uma cinematográfica viagem de avião: os lugares sucederam-se, em linha, conduzindo os nomes e as rápidas histórias. O meu trabalho, a antiga casa deles; a minha antiga casa, o nosso amigo. Quando me afastei tinha já a certeza de que não valem a pena os pequenos papéis (talões de multibanco, bilhetes de metro) onde apontamos números de telefone e endereços electrónicos. A geografia incerta desta amizade há mais de sete anos que vai sendo precisamente desenhada, pista a pista, nos lugares inesperados dos encontros casuais.

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terça-feira, setembro 09, 2003

Santana Lopes e as mulheres casadas,

Esquina a esquina, em cada pedaço renovado da cidade, encontro a afinidade entre o edil e algumas senhoras nesse estado civil. Não é pela rima da frase anterior, mas o Presidente da Câmara de Lisboa tem-me soado como uma esposa ignorada: "Querido, não notas nada de diferente em mim? Não? Vê lá bem... Ontem o meu cabelo não era desta cor, pois não?"

É impressão minha ou há qualquer coisa de muito português na ideia de excepcionalidade associada ao cumprimento do dever?

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Pode alguém ser quem não é?

Durante um dia, o Ponto foi Zé e a Vírgula foi Guida. Agora que regressámos aos nicks habituais, perdemos os comentários. Será este o afamado preço da identidade?

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Re-bonjour,

Foi a saudação da rapariga do MacDo quando regressámos para os sundaes. Paris ficou lá e a Vírgula volta ao blogue, ao diálogo com o Ponto, aos comentários do leitores, ao trabalho (ao meio trabalho), às viagens de autocarro, às divagações no metro parado, aos passeios pela blogosfera. Volto a postar, portanto, regressada das férias e apaziguados os ânimos nos bastidores do Ponto e Vírgula. Atendidas as reivindicações, dou por terminada a greve. Re-bonjour.

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segunda-feira, setembro 08, 2003

A culpa é do buraco na camada do ozono.

Se confrontado, perante a lei, com a esquizofrenia do post anterior, aconselho o meu futuro advogado a alegar "insanidade temporária". Este tempo está a dar comigo em doido. E comigo também. Bolas, com a malta toda que vive cá dentro!

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Estou alheado da actualidade noticiosa - serei normal?

Queridos leitores, querida Vírgula e cibernautas ocasionais: descobri que, com relativa facilidade, consigo estar largos períodos de tempo sem ver o telejornal ou sequer (blasfémia!) ler um jornal diário. O Público de sexta e domingo e o DN de sábado não escapam mas, de resto, no que à síntese noticiosa diz respeito, sinto-me orgulhosamente ignorante - ou, como costumam dizer os lituanos, "ignorance is bliss". Melhor: não é que a enfermidade não tem efeitos secundários visíveis (sim, eu já era feio antes de decidir ser estúpido...)? Indo ainda mais longe, será que, num extremo, irei procurar uma profissão do sector primário, como produtor de ruibarbos geneticamente modificados, em que o grau de exigência intelectual me parece ser o necessário para me inscrever no Big Brother 5? Só o futuro o dirá, mas dizem que o ruibarbo pega bem no Inverno...

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Finalmente, televisão de qualidade.

Ainda não me pronunciei sobre o assunto Big Brother 4, que parece ter invadido a blogosfera nacional nos últimos dias. A verdade é que tenho acompanhado mal o dito, mesmo na qualidade de "matéria bloguística". Numa primeira análise, parece-me claro o seguinte:

- Os participantes são quase todos do norte, têm graus de escolaridade baixos e a profundidade emocional e intelectual de um calhau.

- O objectivo do jogo mudou: não são os largos milhares de euros que motivam estes rapazolas, mas sim a testosterona e a vontade manifesta de se tornarem numa alternativa viável às noites de sexta-feira no canal Viver/Vivir.

- O ananás equivale, para estas criaturas, a meia dúzia de saídas, um jantar janota e alguns poemas inéditos na minha tabela de encontros. Se tivesse descoberto antes as propriedades afrodisíacas deste fruto, tinha poupado umas massas, muitas dores de cabeça e algumas mentiras piedosas (nos poemas, portanto).

Vou prestar atenção à TVI e prometo adensar a análise do assunto em posts futuros. Isto promete.

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Leituras de verão.

Lá em cima, num avião cheio de reticências e parêntises por fechar, uma Vírgula e uma mão cheia de palavras abriam um novo capítulo num romance que se arrisca tornar um best-seller.

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quarta-feira, setembro 03, 2003

Confessionário.

Admiro profundamente todas as pessoas que fazem tudo aquilo de que eu não sou capaz.

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Conversas a que gostaríamos de ter assistido (mas que infelizmente nunca tiveram lugar).

O meu avô: "Então é isto que o fundo do mar esconde..."
Neptuno: "Nada mais, nada menos... a escuridão mais luminosa de que há memória..."
O meu avô: "E os lobos do mar, é para aqui que vêm quando a vida lhes prega uma partida?"
Neptuno: "E que és tu senão o maior de entre todos os capitães?"
O meu avô: "Não diga isso, homem!"
Neptuno: "Algo me diz que a eternidade consigo vai passar a correr..."


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Amigos, amigos.

Eu não tenho muitos amigos. Não digo isto com mágoa nem orgulho. É um facto tão óbvio e inevitável como a corrida dos lemmings em direcção ao oceano. Mas uma coisa vos digo - com os que tenho, não preciso de mais nada. Isto é o mesmo que dizer: um abraço do tamanho do mundo a todos aqueles que os meus braços alcançam.

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Se não sabe, porque é que pergunta? (ou a essência do amor).

Revi hoje, pela enésima vez, o vídeo de "All I Need", uma das mais perfeitas pérolas pop de todos os tempos, saída da batuta do duo francófono AIR. O tema pertence ao mui elogiado e galardoado "Moon Safari", de 1998, mas, mais que um tema genial, "All I Need" apresenta-se sob a forma audiovisual do mais enternecedor vídeo de música de sempre.

À medida que a partitura evolui, as imagens de Mike Mills levam-nos a conhecer de perto um casal que presumimos serem oriundos da costa leste dos EUA (a julgar pelo clima, vegetação e arquitectura). O jovem casal, entrevistado por uma figura que não vemos, responde a uma série de perguntas sobre a sua relação e sobre o próprio sentido da união. O melhor de tudo reside nas respostas, sinceras, simples, sentidas e, contudo, tão densas e nefelibatas. "All I Need", dizem eles."All I Need", digo eu.

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terça-feira, setembro 02, 2003

Declaração de "blogor".

Não fui a Paris, mas comi um ducheise na Versalhes. Vírgula, volta depressa, ma souer, isto sem ti é como o Louvre sem a Gioconda. Je t'embrasse.

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Post solidário.

Aqui no Sindicato dos Blogs, somos assim - a Vírgula está de greve, o Ponto de greve está. Retomaremos a emissão dentro de momentos.

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