A pontuar desde 2003.

sexta-feira, outubro 31, 2003

Nós, os ressabiados.

Lobo Antunes já se pronunciou em relação às declarações de Steven Seagal e Mota Amaral, referindo que, também ele, espera "um dia vir a ser conhecido como um sex symbol em vez de como um escritor intratável que ignora sistematicamente as regras da pontuação."

|

Nós, os giros.

"I am hoping to be known as a great writer and actor some day rather than a sex symbol." Steven Seagal, www.nerve.com.

Mota Amaral já respondeu a estas sentidas declarações daquele que é considerado um dos sex-symbols mais consensuais de Hollywood, Steven Seagal, com um curto e incisivo "Ó Steven, pá, ser irresistível é uma cruz, mas vais ver que aprendes a viver com isso, aprendemos todos...".

|

quinta-feira, outubro 30, 2003

Clooney, George Clooney.

Descobri um actor. Sim, havia indícios de uma propensão para a arte da representação em "O Brother, Where Art Thou?", dos Coen, "Out Of Sight" de Soderbergh ou em "Confessions Of A Dangerous Mind", a estreia na relização do actor. Mas foi pelas mãos dos conturbadíssimos e geniais Coen que Clooney tirou as teimas. A prova de fogo dá pelo nome de "Crueldade Intolerável" e traz nos um Clooney que só tínhamos vislumbrado em "O Brother..", herdeiro de uma tradição de comédia física que teve o seu apogeu em actores como Buster Keaton ou Jerry Lewis.

É nos silêncios que a interpretação de Clooney impressiona, pelas expressões ou pela ausência delas. Descobri um actor e recomendo um filme - "Crueldade Intolerável", de Joel Coen, com George Clooney e Catherine Zeta-Jones, num "multiplex" perto de si.

|

Ena, ena.

Não sou muito dado a efemérides, tendo chegado a esquecer-me do meu próprio aniversário mais do que uma vez. Mas a verdade é que, desde que instalámos o contador de visitas, as próprias ascendem à dezena de milhar (para os que são de letras, mais de 10.000). São 10.000 pares de olhos postos nos disparates e lirismos que para aqui destilamos, há meia dúzia de meses, quase todos os dias. Olhos míopes, claro, caso contrário teriam ido ler um blog interessante. Enfim, imaginem um Ponto, uma Vírgula e uma vénia. Obrigado.

|

quarta-feira, outubro 29, 2003

Em tempo real.

Estou a meio de um jantar de amigos (ok, na sobremesa) e já ouvi a expressão "isso é giro, põe no blog" p'ra cima de dez vezes. Temo que a polícia chegue antes do café. Ou, como diria o David, "... e o juiz disse «12 anos»".

|

Malentendidos,

Há um encanto secreto nos sentidos que se escondem sob o literal. Contudo, só me interessam aqueles que não apagam o primeiro. Basta-me o bónus, a polarização desconcerta-me. É por isso que não procuro entre as linhas; quando muito, deixo-me surpreender pelo que está debaixo dos caracteres.

|

terça-feira, outubro 28, 2003

Algumas pessoas nascem póstumas.

Someone found the future as a statue
In a fountain at attention
Looking backward in a pool of water wishes with a blue
Songbird on his shoulder who keeps singing over everything

Everything means nothing to me
Everything means nothing to me
Everything means nothing to me

I picked up the song and found my picture
In the paper the reflection in the water showed
An iron man still trying to salute
People from a time when he was everything he's supposed to be

Everything means nothing to me
Everything means nothing to me
Everything means nothing to me
Everything means nothing to me

"Everything means nothing to me", Elliott Smith, 1969-2003

|

O melómano masoquista.

Começo com um esclarecimento: ouvir música é um prazer supremo, um dos maiores, mas também um acto de contricção e até, por vezes, um gesto de profunda auto-comiseração e masoquismo. Agora perguntam vocês: mas porque raio é que alguém iria ouvir música que lhes causa desconforto? Porque podemos, digo eu.

Foi assim com o "Selma's Songs" da Bjork (só de escrever o nome do disco fico todo arrepiado) e é assim com o último dos Massive Attack, "100th Window" - são milhares de agulhas afiadas cirurgicamente implantadas nos ouvidos deste vosso mais que todo, fazendo de cada audição um momento mais doloroso que o compacto semanal dos "Morangos Com Açúcar".

Segue-se o "4 Track Demos" da PJ Harvey, cru, cruel, dolorosamente carregado de ódio. Com exorcismos destes, quem é que precisa de terapia?

|

Desculpe lá o incómodo

Ontem fui a um café (não digo isto para que saia no Público, mas para servir de introdução a um tema - porque, de resto, até é mentira). Porque será, que é um entendimento bilateral (ele acha, e nós também), que o empregado nos está a fazer um favor? Pede-se a bica "Olhe, desculpe lá, se não for pedir demais, queria uma bicazinha, fáchavor." E, para não restarem dúvidas, trata-se o EMPREGADO pelo seu título: "Ó chefe". Até pedimos o castigo com aquele ar de ovelha-que-sabe-que-vai-ser-eletrocutada ("Quando puder, queria a continha... ó chefe").

O meu avô tinha a mania de ir todos os dias duas vezes ao café. Sempre o mesmo: O Eiffel, na rua com o mesmo nome. 50 anos de persistência, totalmente inúteis. Era sempre tratado como se viesse chatear a malta de novo.
Outro dia, num restaurante, fui testemunha de um caso típico, que vou inventar aqui, agora:

Cliente (C): Olhe, desculpe lá...
(C): Ó chefe...
(C) Olhe, quando tiver um tempinho...
Empregado (E): Sim diga, por favor.
C: Desculpe lá, mas eu não pedi isto.
E: Como assim?
C: Então, eu pedi um bife na frigideira, com ovo. Isto é uma massada de peixe com marisco.
E: Mas olhe que está muito boa.
C: Mas apetecia-me mesmo é o bife. E sou alérgico ao marisco.
E (já irritado, mas a conter-se ainda): Tsss, alérgico. Isso é marisco fresquíssimo. As delícias do mar foram descogeladas no momento. Vocês está-me a dizer que isso faz alergia? Olhe que isto é um establecimento de qualidade!
C: Não, sabe, desculpe lá, mas isto da alergia - é congénito.
E (tom mais levantado): Com génito?! Aqui não temos cá nada dessas porcarias, hã! Se você tem alergias, não nos culpe a nós, pá! Você acha que eu não tenho mais nada para fazer? Eu 'tou aqui a trabalhar, e você vem práqui dizer que meto porcarias no comer?!! - virando-se para a restante clientela - Eu bem sei que há prái malta a meter génito em tudo mas isto aqui é uma casa séria só tudo fresquíssimo nada de porcarias. (É mesmo assim, sem vírgulas).
C (muito, muito enfiado): Não, não, desculpe lá: é congénito - é de nascença...
E (em tom de agora-é-que-está-tudo-estragado): Ahh!! Nascença, hein?! Agora faço merdas desde que nasci! Tome lá a continha e ponha-se mazéforadaqui. E depressinha, antes qu'eu perca mesmo a paciência.

O cliente sai - passo curto e rápido - , cabisbaixo, com a perfeita noção de que se comportou de uma maneira intolerável. Deixa 15 Euros para pagar uma conta de 8,39, sem pedir troco, e ainda tem o desplante de desejar um bom dia.

E (virando-se para a clientela): Já me viram isto, hã? 'Tá um gajo aqui a trabalhar que nem um cavalo e aparecem estes tipos a gozar conosco. Já não há respeito por quem trabalha, essa é que é essa. Ó Ermenegilda, sai um bitoque para a mesa 1!
C2: Mas olhe que se é para mim, eu pedi uma açorda...

O café continua lá, os empregados continuam os mesmos. O meu avô morreu. Se vivessemos num país com noção do que é serviço, o café teria falido há 49 anos, e o meu avô teria 100 anos agora.

Acaba aqui. Para me insultar pela (má) qualidade, pelos erros e pela completa falta de compreensão para com o homem trabalhador, podem ir bater-me em: R. Barão de Sabrosa, 340 - 2º esq. No entanto, preferia que me ignorassem, pelo menos até que sarem os hematomas da última vez que pedi um bife. Au.

* (Asterisken)

|

Mudando de assunto,

Há agradecimentos e linques para pôr em dia. Ao Nuno, do recém chegado Grupo do Pato, a Vírgula agradece a cunha e a Margarida devolve o cumprimento. Ao Luís Carmelo, retribuimos a simpatia do poste que dedicou ontem a este canto singelo. Um beijinho especial à Lia porque hoje está muito sensível e um desagradecimento com promessa de poste futuro ao Paradoxo dos putos pelo comentário sobre a citação.

O nosso obrigado também ao Bruno Parente, Alice, David, Dra. Charlotte e todos os outros que passam pelas caixas de comentário e põem o dedo no ar. Um grande bem-haja aos nosso professor da primária e restantes colegas pelos dias no campo, nas férias do verão.

|

Desfecho em Alcântara.

Qualquer dia arrumo as luvas e vou fritar bifanas para a roulote do Eixo N/S. Prenúncios destes fazem-me querer sempre mais. Não bifanas, mas prosa poética da Vírgula. Interroga-se o Bruno aqui nos comentários, "para quando poesia da Vírgula?". Para já, Bruno, para já.

|

segunda-feira, outubro 27, 2003

Prenúncio em Algés,

Era o céu escuro, quase noite, com o recorte dos prédios iluminados pela luz amarela que o sol põe ao entardecer. Eram cinco da tarde porque é Outono e o tempo nos confundia, desajustado ainda do tamanho dos dias.

Não chegámos a ver a tempestade – ainda não tinha chegado ali. Quase que não vimos a feira de coisas velhas – toldaram-se as coisas com os preparativos do fim. Vimos o vento a fazer girar as palmeiras. Rápidas, as mãos dos feirantes a apanhar os objectos que regressavam aos sacos, aos carros, ao intervalo das histórias. Não tenho a certeza se foram as pessoas que começaram a correr quando choveram as primeiras gotas, pesadas e distantes. Ou se foi o vento a crescer em espiral e por isso os movimentos pareceram-me todos mais acelerados. Ou se durante a nossa fuga, sob os meus olhos passaram ainda mais coisas velhas, em trânsito para dentro dos sacos, para dentro dos carros, para longe dali.

Foi no abrigo do carro que vimos as gaivotas fugidas, desarrumadas entre os prédios, brilhantes também elas, sobre elas o mesmo sol. E logo a seguir, com as cores todas, os dois arco-íris. Um dentro do outro, voltas perfeitas, mais nítida a ilusão de dentro que a ténue sugestão de fora.

A voz da Jussara anunciava certezas. Por isso, e porque é natural de muitos lugares e também daquele, tive que acreditar quando me disse mais do que uma vez: “só em Algés é que podes ver uma coisas destas”. Deixámos o rio para trás, cinzento, a nuvem carregada colada ao Tejo e, antes do azul celeste de uma bonança superior, o sol na nuvem branca, néon horizontal. À medida que regressávamos à cidade, foi desaparecendo tudo o que parecia ser.

|

Hipérbole,

Os prudentes afligem-se quando são tocados pelo exagero dos outros. Seremos melhores quando soubermos aceitá-lo como uma dávida.

|

Olhó engraçadinho.

Muito a propósito dos itálicos que ainda não o são, endereçámos um convite, aqui no Ponto e Vírgula, ao comentador David para que se juntasse a nós nestas aventuras gramaticais, sob a forma de alter-ego "asterisco". O direito de resposta do dito, já a seguir, prova que, afinal, a metade humorística do blog não é uma metade, mas um terço e que, infelizmente, não sou eu.

Estou tão sem fala, que nem consigo escrever. Mas mal consiga, tentarei corresponder ao apelo. Que responsabilidade! Vou já comprar um dicionário. Tem é que ter bonecos. A minha vista está de tal modo turvada de lágrimas de felicidade, que as letras pequenas agora não dá. Vou ali lançar um sonoro "HEEEE-HAAAAAAAAAAA" à janela e já volto. Cá estou de novo. Não sei por onde começar. Tentei ser inovador e começar pelo fim da página do e-mail, mas o programa não deixa. Vou precisar de um tempinho para me recompor. Agora é que dava jeito uma broca, mas como não vou nessas merdas, vai ter que ser mesmo para a veia, como de costume. Limão, um limão! O meu dicionário ilustrado por um limão! Laranja?! Esquece lá isso. Vou ter que fazer um "Ohmmmmmmmm". Já estou melhor. Pelo menos deixei de bater no presidente da agência. O chamado nervoso miudinho. Ele não. As pancadinhas. Tenho que me lembrar de lhe mandar flores. Ao hospital ou directamente à viúva? Já não posso mais. Vou ter que acabar isto. Curvo-me respeitosamente perante os detentores do ;. * (Asterisken)

O Asterisco é o David e mora por cá sempre que quiser, como aliás todos os que se sentirem em casa. Wilkomen, boche de uma figa ;)

|

O senhor que se segue,

Enquanto os futuros itálicos, tímidos, não saem das caixas de comentário, o Pai Itálico vai enviando um ou outro poste a ver se credibiliza o blogue. Mania de pai: há muito que desisti de tentar fazer deste um blogue sério. O título é da inteira responsabilidade da filha, por isso mesmo.

|

A chuva a cair, a rádio no ar,

Hoje, domingo, no programa do Carlos Pinto Coelho na TSF, uma espécie de “Acontece” para invisuais, juntaram-se pessoas ilustres, algumas com responsabilidades de serem fazedores de opinião – em inglês “opinion makers”. A questão para debate (questão tão efémera que já parece velha) era a inclusão do regulamento do “Grande Irmão” – em inglês “Big Brother” –, numa página de um manual de português do secundário. Quando o CPC levantou a questão, todos tomaram uma postura científica, muito voltada para a legitimidade da utilização exclusiva de textos literários para ensinar a língua portuguesa. Que a rapaziada chegava ao secundário com várias lacunas básicas, tais como a incapacidade de ler regulamentos, ou a literatura dos remédios, dizia-se. Vai daí a questão foi historicamente (muito bem) contextualizada por Carlos Ceia, que é professor da “Nova”, tal como Eduardo Prado Coelho, que no início nem sequer se importou com a provocação da questão e fez uma abordagem científica e tolerantemente correcta. Todos falaram do ensino da língua portuguesa, o representante da Associação de Professores de Português, Feytor Pinto, creio, esbracejou um pouco mais, mas ninguém respondeu ao desejo escondido de CPC. Isto é, dizer que simplesmente isto de nomear várias vezes a mesma coisa é uma merda, só serve para desculpabilizar quem embarca num agenda setting inconsciente de fomentar a foleirice e o analfabetismo anexo. Mas acho que era verdade tudo o que disseram. Pena foi uma certa falta de coisos, para chamar às coisas os respectivos nomes das coisas, sem desvios e eufemismos teóricos. (Porque será que eu estou a falar de eufemismos?)

O Pai Itálico é mesmo Pai e é da Vírgula.

|

O talento dele,

O que se diz aí em cima é mesmo verdade: dois sinais podem pontuar em desacordo. Era assim na nossa escola, é assim no Ponto e Vírgula. Mas se no que respeita à poesia, postamos de cantos diferentes aqui do blogue, o mesmo não acontece nos momentos de engenhoso humor do Ponto. Como os três postes anteriores. O facto do assunto já ter sido abordado no gato fedorento (quantos anos são dois meses, na blogosfera portuguesa?) é a prova da evocada falta de memória do Ponto. (Podem acreditar, leitores, que ele se esqueceu mesmo do aniversário da Vírgula, e só por isso foi perdoado.) Não só: a recorrência temática é, para mim, mais um sinal do talento dele. Quer dizer que podia postar ali, se não o fizesse aqui.

|

domingo, outubro 26, 2003

Mas é que são mesmo muito engraçados.

Num café.

Eu: "Traga-me os palitos, se não se importa."
Empregado: "Com certeza - quer os da casa?"

|

E ainda dizem que os portugueses não têm sentido de humor.

Noutro restaurante.

Eu: "Traga-me um copo de água, por favor."
Empregado: "Copo de água não tenho, só copo com água."

|

Se já sabe, porque é que pergunta?

Num restaurante.

Eu: "Que sobremesas é que tem?"
Empregado: "Pudim flan, arroz doce, leite creme, mousse de chocolate..."
Eu: "E o que é que é de hoje?"

|

O pipi do Ricardo.

O anti-cristo (Pedro Rolo Duarte, para os mais distraídos) manda a ética às urtigas ("and now for something completely different...") e revela que O Meu Pipi é o Ricardo Araújo Pereira, dos fedorentos, das Produções Fictícias e por aí fora. Este furo jornalístico merece, da minha parte, um par de considerações:

- Está explicado porque raio é que os textos do Pipi têm uma qualidade literária muito acima da média.
- Ó Ricardo, pá, com tanto tema sobre o qual te debruçares (a tradução completa da obra de Paulo Coelho, por exemplo - aposto que traduzido por ti, a coisa até se tornava digerível...), porquê a abordagem grosseira ao "escachanço"?
- O Pedro Rolo Duarte é um chibo.

Além do mais, revelações são coisas de roto.

|

sábado, outubro 25, 2003

Prazos de validade.

Anteontem não consegui comprar o jornal de eleição. Uma vez que era sexta, dia de Y e de Inimigo Público, fiquei genuinamente irritado. Hoje, sei que se o for procurar, irei ouvir "pois, já devolvemos os jornais de sexta". Será que sou o único a achar que os jornais só deveriam ser devolvidos uns dois dias depois? Mas nãoooooooo. Toda a gente se quer ver livre deles como se fossem material radioactivo ou, pior ainda, os rascunhos dos discursos do Mota Amaral na AR.

Meus amigos, unam-se a mim nesta luta inglória, pelo direito ao jornal do dia anterior.

|

Agora que falam nisso.

A poesia tem morado muito por cá ultimamente. Como diz a Vírgula, lirismos é mais com ela. No entanto, não queria deixar de aproveitar a ocasião para partilhar convosco um poema acabado de escrever, tão inspirado pela meteorologia, tão enraízado no que de mais profundo há em cada um de nós. É mínimo e niilista (minimalista, portanto).

Está a chover
Chuva
Porra
E eu que tinha acabado
De pôr roupa na corda
Porra
Chuva
Que parece ser feita de água
Água
Suja
Chuva
Porra.


(Um poema pode acabar com porra? Pipi, dá-me uma ajuda aqui...)

Obrigado.

|

Espectadores danados.

Não se faz. Que a Miramax queira render o peixe, eu até percebo (afinal, passaram-se oito anos desde "Jackie Brown"). Que o próprio Tarantino queira ter o dobro das receitas de bilheteira, enfim, um homem precisa de comer, bolas. Agora, que venham para aqui dizer que partiram "Kill Bill" ao meio porque o filme ficou com três horas na mesa de montagem é estar a gozar com a malta. Sobretudo, depois de "Magnolia", "Apocalypse Now Redux" ou qualquer um dos tomos da saga "Senhor dos Anéis" ultrapassar (no caso da obra de Coppola, largamente), a marca do senhor "Reservoir Dogs". É verdade que gostei dos pézinhos de coentrada - agora, a própria da feijoada, só em Março.

|

Versos do Zé Mário, a propósito do comentário,

56 (hades)

Entram e saem do autocarro
e nem olham para as pessoas
que vão sentadas nas cadeiras
de plástico amarelo, nem olham
para as crianças que abanam as
pernas e puxam as saias das mães,
nem olham para os velhos que
andam às voltas pela cidade a
ver se matam o tempo, não olham
para o viaduto, não olham para a
Avenida de Ceuta, não olham.
Entram em vários sítios e saem
sempre no mesmo, ali em frente ao
morro. O autocarro segue a marcha
e as pessoas não sabem o que fazer com
as mãos. Ficam os silêncios, o cheiro.
E regressa lentamente ao mundo dos
vivos a tenebrosa barca de Caronte.


José Mário Silva, Nuvens e Labirintos, Gótica, 2001

lisboa

Para ele
a cidade
era só isto:
andaimes
e palavras.


José Mário Silva, Revista Relâmpago, 4/2003

|

sexta-feira, outubro 24, 2003

Quando os canhotos arrumam à direita,

O J. e o N. arrumaram a estante e catalogaram este nosso canto como curso de português. O leitor que dali venha queira perdoar-nos se não conseguirmos dar resposta às questões de gramática. Como dizíamos nos comentários: nós aqui, não é mais bolos, somos mais lights.

|

quinta-feira, outubro 23, 2003

Conselho de profissional,

Passa por mim várias vezes. Sobe a Morais Soares apressado; as mãos trémulas a esconderem-se, muito sujas, nos bolsos; o boné enterrado até as orelhas; a pala que lhe ensombra os olhos baços, fixos, ávidos. Desce, depois, a avenida, num ziguezague lento e trôpego. Umas vezes, junto ao alcatrão, balança o braço pendurado no tronco imóvel, as pernas arqueadas. Há dias em que é carteirista, outros arrumador. Mas suspeito que a profissão dele é outra. Estava de folga dos biscates, disso tenho a certeza, quando passou por mim ontem, a passo rápido na Almirante Reis, e me sussurrou ao ouvido: "tens a mala aberta, cuidado com a carteira".

|

terça-feira, outubro 21, 2003

Por exemplo,

METROPOLITANOS

Aqui estamos, atravessando
sem saber o nosso destino,
à espera que o próprio caminho
o torne evidente (mas não),
somos todos assim metropolitanos (urbanos),
saímos na estação errada,
lemos cabeçalhos, vemos o envelhecimento
nos rostos que connosco através
de túneis dantescos (cliché),
e pensamos (ou dizemos agora que pensámos)
que há um plano que nos ultrapassa (rodoviário),
um plano (subterrâneo)
de linhas que se cruzam com as linhas
da mão, interceptadas em cores
e com o guarda-roupa do nosso
tempo (capitalismo tardio)
atravessamos (atrasados), sob o sol
que imaginamos em cima (platónico),
interrompidos pelo parêntises irónico
da consciência que talvez queria fazer
a diferença mas não faz nada (nada).


Pedro Mexia, Eliot e Outras Observações, Gótica, 2003

|

Afinidades pontuadas,

Não sei se terá a ver com o alter-ego que escolhi para aqui postar, mas os poemas deste senhor que mais me têm agradado são aqueles onde os parêntesis multiplicam os sentidos.

|

Materiais de construção,

Bem a propósito, na ausência da Vírgula, o debate sugerido por esta senhora sobre escritores e pedreiros. Parece-me agora especialmente difícil estabelecer o paralelo entre o mundo da construção civil e as letras. Enquanto tento encontrar a melhor conjugação para os azulejos da casa-de-banho, sou incapaz de produzir um único poste com conteúdo. Cinza e tangerina: o que dizes, Ponto, destas tonalidades mate?

|

domingo, outubro 19, 2003

Procura-se.

Desapareceu de seu blog, no passado dia 10 de Outubro, Vírgula Hífen (Vírgula da mãe, Hífen do pai), ilustre bloguista e promissor sinal de pontuação no universo das letras. O paradeiro da cara metade do Ponto é desconhecido. Foi vista pela última vez trajando uma linha curvada a partir de um círculo. Usa óculos. Dão-se alvíssaras. O contacto está na caixinha lá de cima. Muito obrigado.

|

Discos pe(r)didos.

Provavelmente, já vos aconteceu também. Lembramo-nos daquelas férias ou da outra noite e, claro, da inevitável banda sonora que a acompanha. Vamos até à prateleira dos CD's e procuramos por ordem alfabética, por estilo musical ou à maluca (esse método tão científico), por exemplo, o "Moon Safari" dos Air, esse momento de génio da nova vaga de música electrónica - lá dentro, a rodar em "loop", "All I Need is this mind, so I can celebrate...", o coração a acelerar, a naftalina a subir e... nada. Não há "Monn Safari". Porra. Já gravei este CD pelo menos três vezes. Será possível que o tenha emprestado e se tenham esquecido de mo devolver, OUTRA VEZ? Haverá uma rede clandestina de CD's desaparecidos? Será que combinam entre si, por uns e zeros, a data e o local da fuga? Se sim, qual o critério?

Seja como for, melómanos incautos, guardem o vosso "Moon Safari" como se fosse o último malteser do pacote. Eles andem aí.

|

quinta-feira, outubro 16, 2003

As minhas virilhas.

Nunca fui especialmente ligado à política. Aqui há tempos percebi que qualquer adulto que se preze tem que ter uma postura política. Bem vistas as coisas, tudo na vida se resume a uma escolha primordial: esquerda ou direita. Ainda antes de saber chamar as coisas pelos nomes, sabia que preferia o gelado da esquerda, em vez do que estava mais à direita na montra. Mais tarde aprendi que era a mão esquerda que empunhava o garfo e não a sua congénere do lado oposto, como é mais comum. Há uns anos percebi que todos os valores em que acreditava eram ou de esquerda ou de direita.

Continuo apartidário (como sempre fui), muito pouco político (no sentido concreto do termo), mas a verdade é que quando o alfaiate me perguntou "para que lado é que o meu amigo aparta?", a resposta tornou-se clara.

|

quarta-feira, outubro 15, 2003

O apocalipse.

"Polo Norte realizam digressão acústica" in Disco Digital.

|

terça-feira, outubro 14, 2003

Nas entrelinhas.

Quem já ouviu o "Hallelujah" do Leonard Cohen na voz do malogrado Jeff Buckley sabe que Deus existe. Apesar de ser muito tímido. E mulher, claro.

|

Tortura medieval.

Há quem sofra por antecipação com a ideia de uma ida ao dentista. Outros crispam-se ante a imagem de uma endoscopia (ou de uma rectosigmoidoscopia... acreditem, é tão mau quanto soa...). A mim, horror dos horrores, arrepiam-se-me os cabelos da nuca na véspera de um corte de cabelo. Pior: é amanhã.

|

Axioma du jour.

As pessoas dividem-se em dois tipos: as que acham que as pessoas se dividem em dois tipos e as outras.

|

sexta-feira, outubro 10, 2003

Duas letrinhas apenas,

Num computador demasiado partilhado para favoritos e com um teclado meio engasgado, tentei espreitar a Bomba. Em vez do blogue da Charlotte, saiu-me este. Esqueci do e e do s, mas, juro, eu só queria a etimologia, senhores.

|

Restaurante Chinês II,

Enquanto lavo as mãos, tento decifrar o autocolante colocado sem estratégia abaixo do nível dos olhos, sobre o lavatório. Presa a minha atenção pelo título em caixa alta: "CLÍNICA DO PÉ", sigo pelo desfiar de possíveis maleitas. Termina, cito de cor, com o desafio "visite-nos e traga um amigo". Pois claro, como dizia alguém na mesa, não podemos levar um amigo qualquer, aquilo é programa para "amigos do pé".

|

Restaurante chinês I,

Há muito que desisti de procurar perceber o fascínio que tenho pela decoração deste género de estabelecimentos. Os budas dourados; as cadeiras com assento almofadado a vermelho e coberto de uma película transparente; o plástico a imitar madeira: impressionam-me porque me surpreendem sempre. Nunca espero que se possa ir tão longe no design de interiores.

Confesso que no primeiro lugar do meu ranking - criteriosamente elaborado tendo em conta mais o aspecto do espaço do que a qualidade do crepe -, no primeiro lugar do meu top ten, dizia, esteve muito tempo o China Lido. Um lugar simpático, sito na Praça Paiva Couceiro, a que se acede descendo uma rampa coberta de PVC. Lá em baixo, na vasta sala, que parece nunca esgotar por mais festas de anos que ali reunam convivas, pode comer-se debaixo de uma enorme árvore, junto a uma das seis janelas (com vista para a cascata, com vista para o bosque, com vista para o lago), ou perto dos pandas tridimensionais que partilham um canteiro de bambu com um pavão de cauda aberta.

Não foi a barata que caiu no prato da filha mais velha da família da mesa em frente que fez descer de posição o China Lido. O restaurante ao cimo da Morais Soares foi substituído nas minhas preferências por um outro, perto do Marquês do Pombal. Não terá sido apenas por isso, mas foi muita a influência do karaoke. Na televisão virada para a porta, sem som, com os caracteres chineses a colorirem-se para logo desaparecerem e, ao fundo, imagens (em movimento!) das cascatas, do bosque, do lago, montados em paralelo com encontros românticos em escadarias sem fim.

|

Postes em atraso,

Dialogamos quase nada aqui, pouco por mail, alguma coisa pela telefone - o Ponto e a Vírgula preferem a interacção cara a cara para se picarem e responderem um ao outro. Contudo, os generosos contributos da outra metade do blogue nesta última semana originaram dois ou três postes cujo publicação foi sendo sucessivamente adiada.

Seguem-se postes encadeados sobre karaoke e restaurantes chineses.

|

Ausência justificada,

O som do teclado no silêncio do escritório mínimo onde trabalho incomoda a parte de mim que conta os segundos para sair de vez.

Além disso, há os escombros na que vai ser a minha casa e, até lá, minha vida espalhada, em pedaços avulsos, por Lisboa.

|

Be Happy, Go What?

A Vyrus (recentemente rebaptizada Yorn Store), ali no Chiado, vai levar a cabo uma iniciativa única - "Be Happy, Go Naked", de seu nome, desafia os visitantes da loja a entrar na própria em pelota e a sair completamente equipados com roupa Yorn Store. Ou seja, a conhecida marca de telemóveis paga a quem se despir. Já pensei em participar, mas pus-me a pensar - quanto é que será que pagam ao resto das pessoas para me ver nu?

|

Insónias.

Há algo de profundamente erótico e perturbador na visão de um homem adulto, barba e tudo, a dançar e cantar o "Like A Virgin" como se não houvesse amanhã.

|

Vais usar isso?

Sempre fui à animada festa do Desejo Casar, sempre dancei o "Summer Of 69", não casei, não tive propostas, mas apaixonei-me várias vezes. À saída dei por mim a pensar na quantidade de blogs que hoje de manhã iriam relatar os episódios insólitos da noite de ontem.

Foi imerso nestas deambulações que me recordei de uma cena memorável do Seinfeld, retirada do espectáculo (e posterior DVD) "I'm Telling You For The Last Time". Cemitério, dezenas de personalidades do mundo do entretenimento e da comédia "made in USA" assistem ao enterro das piadas de Jerry Seinfeld - sim, é mesmo um caixão repleto de pequenos papéis amarelos com as melhores tiradas do génio cómico. Paul Raiser (de "Mad About You", lembram-se?) desabafa com um dos presentes:

Paul Raiser: "Why is it the best landscapes in town are always in the cemetery? People are dead, they can?t even see it."
O Outro: "That?s good, are you gonna use it?"
Paul Raiser: "Use what?"
O Outro: "That bit."
Paul Raiser: "What bit?"
O Outro: "That bit about the cemetery."
Paul Raiser: "That was not a bit, that?s me making conversation!"
O Outro: "Well? can I use it?"

Este "bit" não é de mais ninguém? Posso usá-lo?

|

quarta-feira, outubro 08, 2003

Coça-me as costas.

A malta do Desejo Casar vai organizar um chá dançante amanhã à noite (mais informações no link). Com tantos desejos, querem ver que é desta? Pelo sim, pelo não, vou lá dar um pulinho para ver se me calha alguma coisa. É que o "Summer Of 69" faz milagres...

|

No meio dos destroços,

Há-de passar a luz por onde ontem era uma parede. Erguem-se deles novas formas de vida, quando os escombros são das obras em casa.

|

terça-feira, outubro 07, 2003

Salada de frutas.

Ontem estive no lançamento oficial de uma consola de jogos portátil de uma marca cujo nome não posso referir (começa por N, acaba em A e lá pelo meio tem as letras OKI, mas não posso adiantar mais?), na FNAC do Colombo. Estava lá o elenco dos "Morangos Com Açúcar", uma novela que foi vendida pela TVI como "as Marés Vivas à portuguesa". Bom, maré só se for baixa e com levante, mas vamos ao que interessa.

Os moçoilos e moçoilas passeavam-se com poses altivas, como se a sua condição de estrela (num país onde as estrelas quase não cintilam) os tornasse especiais, mais radiantes e imprecindíveis. E é curioso: quando se cumprimentavam entre si, faziam-no efusiva e ruidosamente, como se a prova de afectividade só fizesse sentido com plateia. No fim de tudo, pegaram em si, nos seus sorrisos de plástico, nas suas fragilidades e em tanta tristeza e partiram, deixando para trás uma certeza: com ou sem açúcar, estes morangos já passaram de época.

|

segunda-feira, outubro 06, 2003

A grande superfície.

Como relatava a Vírgula aqui há tempos, há amigos que perdemos com o tempo e que recuperamos nas circunstâncias mais insólitas. Um desses amigos é meu e, depois de uns anos sem lhe por a vista em cima, encontrámo-nos no Continente do Colombo. Trocámos umas palavras calorosas, sobretudo sobre as vantagens do Aloé Vera por oposição ao Mentol (estávamos no corredor da higiene, portanto), despedimo-nos e a coisa ficou por ali.

Duas semanas depois, cruzámo-nos no Pingo Doce de Alcântara. Rimo-nos da coincidência e o ritual repetiu-se, desta vez com uma piada sobre o gruyére (estávamos na Charcutaria) e lá fomos nós. Na semana seguinte, voltámo-nos a encontrar no mesmo Pingo Doce. Sorrimos, muito e já nem trocámos palavras. Na semana passada voltei a cruzar-me com o Tiago, no Continente. Desta última vez, rimo-nos muito, com vontade e prometemo-nos encontrar, para a compra dos presentes de Natal, no Jumbo de Alfragide.

|

domingo, outubro 05, 2003

Pena capital.

Ontem estive num restaurante com karaoke. Defensor acérrimo dos direitos humanos que sou (sim, assinei a petição da lapidação e até dos testes em animais), enquanto ouvia o "Chamar A Música" (uma música já de si criminosa) ser assassinada, entre a mousse e o café, só pensava em como alguém tinha que ser punido, longa e dolorosamente. Para a próxima, saco do trunfo - "Richard Cleyderman plays Fernão Capelo Gaivota, A Master Piece By Richard Bach", sem dó nem misericórdia.

|

Depois do sinal.

Tou, Vírgula, sou eu, o Ponto! Com aquela do atendedor de chamadas lá no blog é que me lixaste... fiquei tão atrapalhado que nem imaginas. O que vale é que esse momento (aparentemente) feliz parece ter sido passageiro e já voltei aos disparates do costume. Encontramo-nos no nosso cantinho? Um beijo para ti, depois a ver se combinamos um jantar esta semana. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii.

|

sábado, outubro 04, 2003

Está?

Está a ler o blogue do Ponto, autor do excelente poste hoje (re)publicado num suplemento semanal. Neste momento, ele não pode atendê-lo. Após o sinal, queira deixar mensagem na caixa do pontapé ou pôr o dedo no ar. O Ponto responderá assim que sair de baixo da pilha de cartas e postais de fãs e depois da assinar o contrato com a Oficina do Livro. Para assuntos domésticos ou afixações urbanas, contacte a Vírgula. Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

|

quinta-feira, outubro 02, 2003

A ousadia da diferença.

Ainda no capítulo campanhas de publicidade memoráveis, e em resposta a um picanço do nosso Leitor Devidamente Identificado David (meu amigo e colega), é impossível não referir a campanha com que a Apple redifiniu o seu posicionamento, há uma boa mão cheia de anos atrás.

Enquandramento: Steve Jobs e Bill Gates são amigalhaços, "computer nerds" e, juntos, decidem criar um computador revolucionário, com um software "user friendly", intuitivo, no fundo uma alternativa aos códigos BASIC e C+ que marcavam os sistemas operativos da época (ainda se lembram do MS DOS?). Do sonho nasce a Apple, o sistema operativo OS e os Macintosh, um alternativa ao monopólio dos PC's. Bom, Gates, um chibo de primeira, abandona o barco e cria a Microsoft, aos comandos da qual desenvolve o sistema Windows, uma cópia manhosa do OS e enriquece. Steve Jobs mantém-se fiel aos seus princípios, fica na miséria e não desiste.

É aqui que arranca a campanha "Think Different". O filme de TV, uma obra prima da publicidade, é uma sucessão de imagens de arquivo de personalidades que ousaram ser diferentes e, precisamente por isso, marcaram os mais diversos quadrantes da sociedade - Einstein, Muhammed Ali, Malcolm X, JFK, Gandhi. O texto, que corre em "voz off", é um fabuloso elogio à diferença, à capacidade de romper barreiras, uma homenagem aos inadaptados que fizeram história. No fim, a imagem que encerra o filme é a do logo da Apple, uma maçã trincada, acompanhada pelo conceito que encerra todo este raciocínio - "Think Different".

Se resultou ou não, não vos sei dizer, mas a verdade é que escrevo estas linhas do meu imac azulinho e, não, não valem a pena insistir, que não o troco por nada deste mundo.

|

quarta-feira, outubro 01, 2003

Post-it.

Os clientes mais cobiçados por qualquer agência de publicidade são aqueles que 1) dão mais dinheiro 2) dão mais prestígio 3) permitem desenvolver um trabalho mais criativo. Um desses clientes é a post-it, o produtor dos pequenos blocos (primeiro amarelos e agora de todas as cores) que funcionam como a memória que nos falha, pequenos lembretes do quotidiano, de números de telefone, de listas de compras ou de beijos fugidios.

Há um par de anos, com base no conceito "Post It. Don't forget", a marca criou uma campanha de imprensa memorável, com imagens de algumas das figuras mais emblemáticas da história da humanidade, que deixaram para trás um legado que, para além de ter de ser perpetuado, não pode ser esquecido. Por cima de fotos a preto e branco de Madre Teresa de Calcutá, Ghandi ou JFK, surgia, em jeito de lembrete, o post-it assinado com uma mensagem que resume toda a filosofia da marca - "Post It. Don't Forget".

Todos os dias paro uns bons minutos num semáforo complicado a caminho do trabalho. Todos os dias me deparo com a mesma mãe e filha, de braços estendidos, enroladas em trapos, a pedir uma esmola, uma moeda para uma sopa, uma ponta de compaixão. E todos os dias sinto que me voltaram a colar um pequeno quadrado de papel amarelo na alma. "Post It. Don't forget".

|

Mais clássicos nocturnos,

Quem nunca sonhou que sai à rua descalço e dá pela falta dos sapatos a meio do caminho? Ou com um vestido demasiado curto, cada vez mais curto, que nunca chega para tapar o pânico, quando se repara no tamanho? Quando recebi a resposta ao e-mail de carácter profissional enviado inadvertidamente de uma caixa partilhada, com um remetente improvável, olhei para baixo e deparei-me com os meus pés nus, balançando alegremente debaixo da secretária.

|

Toca e foge,

Depois da excelência, o Ponto recolheu-se ao silêncio. Espero que o arquitecto principal aqui do blogue não esteja a sofrer com a angústia do poste seguinte.

|