A pontuar desde 2003.

sexta-feira, novembro 28, 2003

Ah, então és tu.

Sou, confesso, sou eu. No início, sentia-me um pouco estranho, bizarro até. Mais tarde, e com o tempo, aprendi a aceitar as minhas diferenças e a viver com elas. Agora, rendido que estava às evidências, vou deitar tudo às urtigas e vou deixar de o ser. É verdade, meus amigos, já devem ter ouvido falar de mim em lendas e mitos urbanos, mas eu, o Único Português Que Ainda Não Foi À Neve, vai deixar de o ser, daqui a meia dúzia de dias. Proponho-me agora como uma nova ave rara, epíteto que tão cedo não conto abandonar - O Único Português Que Ainda Não Foi Ao Recife. E deste, não abdico.

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A lida da casa.

O regresso da Vírgula é como o final de um fim do semana grande com os pais fora - o fim dos batidos de feijão frade, das meias a aquecer no micro-ondas e das sessões contínuas d' "A Noite Dos Mortos Vivos". Limpos os despojos do dia, a casa começa a parecer mais arrumada. Aqueles de vocês que desistiram de nós durante esta licença sem vencimento podem agora respirar de alívio - já somos dois, já somos de novo tese e antítese, razão e coração, azia e lirismo, enfim, Ponto e Vírgula.

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quinta-feira, novembro 27, 2003

Tentar a sorte,

"Não quer uma raspadinha para aliviar o stress?" - pergunta-me o rapaz enquanto me entrega o troco do jornal. Para quê jogos de azar quando se posta em mais do que um blogue?

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Sobre a citação (poste em dívida),

Não gosto de discutir por causa de citações, do mesmo modo que me recuso a polemizar sobre a roupa que alguém veste (mesmo que esse alguém seja eu).

Leio as citações como ilustrações verbais do discurso. Alguém disse melhor e, em vez de copiar, pede-se a formulação emprestada porque dá jeito para mostrar como se chega até uma ideia. As citações que não me incomodam são aquelas que funcionam como croquis, explicam o caminho melhor do que se nos puséssemos tudo pelas nossas palavras, sempre insuficientes, sempre imperfeitas, sempre incompletas.

Todos os outros usos das aspas e do que contém arrepiam-me, quando me surpreendem na leitura. Reparo demasiado em algumas citações e, porque reparo nelas, tornam-se em nós do texto que tenho que desatar. Paro para pensar por que é que está ali a expressão de um e não de outro; porquê aquela, a começar assim e não a outra, a começar adiante: sinto-me numa encruzilhada falsa, um cruzamento criado ali mesmo por mim, exterior ao texto que fluía à minha frente. Ainda assim, se o que é dito, se o que se quer ilustrar, é mesmo interessante, sigo o meu caminho, rumo à ideia. À excepção da BD, o texto seduz-me mais do que a imagem e sou tolerante se adiante uma outra imagem, genial, me deixar uma impressão melhor que uma citação desconfortável.

Vem este poste a propósito de um comentário lá fora quando aqui afixei um poema (alheio, claro, não há versos próprios cá no blogue, entre aspas e em itálico, por isso mesmo). Não me parece tratar-se uma citação como a entendo, embora reconheça que, literalmente, possamos chamar-lhe assim. Por coincidência, na mesma altura, recebemos na caixa do pontapé publicidade a um disponsitivo que se propõe postar por nós. Eu prefiro escolher o meu template, os meus autores, as palavras que ponho entre aspas e a cor das minhas camisolas.

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Entretanto, regresso,

De bom, a rotina não traz só a delícia do imprevisto, mas também a certeza de que há intervalos. Quando posto, seja onde for, é sempre entre qualquer coisa. Na minha vida, os minutos voltaram a ter sessenta segundos encostados uns aos outros, em vez da sucessão engasgada do mês passado. Se volto a viver, regresso ao blogue nos entretantos.

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A vida, condensada.

"Na casa com 1,62 metros de largura, tão estreita que mais parece um corredor, há espaço para o essencial e para as recordações de "uma vida inteira" passada ali. Manuel Pereira de Barros, 77 anos, vive (...) num dos mais estreitos prédios da capital. Uma mesa, algumas cadeiras, um armário e dois ou três pequenos espaços de arrumação compõem a sala. Ao fundo do corredor, uma cozinha, um cubículo tão pequeno que o frigorífico tem de ficar à porta. Alguns anos depois (...) Manuel arrendou também o andar de cima. Aqui, apenas duas estreitas camas encostadas à parede e aquilo que em tempos foi uma cozinha, mas é hoje utilizado como casa de banho. (...) Entre lamentos de falta de visitas e pouco tempo dos vizinhos para conversar, Manuel passa o dia a ler. Nesses momentos solitários, a estreita casa do número 12 da Rua S. João da Mata quase parece grande demais." in Público

1,62. Menos que a altura média dos homens portugueses. Um pouco mais que a das mulheres. Da largura de um elevador. Com uma fita métrica, o Sr. Manuel mede a largura da casa e ainda sobra. Um espaço claustrofobicamente pequeno. Minúsculo. Onde, todos os dias, há cinquenta anos, se ensaia uma felicidade que não conhece paredes, portas nem janelas. Tudo isto no prédio mais estreito de Lisboa. Quem disse que Deus não tem sentido de humor?

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terça-feira, novembro 25, 2003

Um homem pode sonhar, ou não pode?

A terra engoliu um autocarro, mesmo ao lado da estação de Campolide. Os peritos em espeleologia andam para aí a dizer que o abatimento do chão foi provocado pela antiga ribeira de Alcântara que ainda hoje teima em correr por debaixo do Aqueduto das Águas Livres. Tangas. Eu sei de uma pessoa que sabe, por intermédio de um primo do irmão do Vereador do Lixo da CML que Lisboa, a cidade, ganhou vida própria e anda a engolir coisas à parva, tendo por critério o bom gosto e a estética.

Ainda de acordo com as mesmas fontes, seguem-se no cardápio as Amoreiras, o Colombo, todas as fontes municipais construídas nos últimos dez anos e, last but not least, já em jeito de sobremesa, o monumento de Cutileiro no Parque Eduardo VII.

A Protecção Civil já está a tratar do fabrico do Kompensan de duas toneladas que Lisboa vai ter que tomar para combater a azia provocada por tamanhos excessos alimentares.

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segunda-feira, novembro 24, 2003

Persistência do erro.

Sempre que quero classificar algo como inconfundível sai-me antes a expressão irreconhecível – quanta verdade encerra um erro repetido?

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Qualquer-coisa-gate.

Os bloggers são como os jornalistas (raios, a maioria deles até são jonalistas) – têm as suas fontes e protegem-nas com uma ferocidade própria dos fanatismos religiosos. Ok, muitas delas são do domínio comum – o público online, a CNN ou a NBC, só para citar alguns. Mas, para além destas menos valiosas, há as secretas, as “gargantas fundas” da blogosfera.

Como sou um blogger sem escrúpulos nem qualquer noção de ética, vou revelar a minha “garganta funda” – chama-se nerve e é o site de uma das mais interessantes publicações mundiais. Aos desprevenidos, cuidado: o cerne da nerve é mesmo o sexo, em todas as suas possíveis interpretações. E é curioso como o assunto, pondo de parte a pornografia, continua a ser profícuo e muitíssimo profundo (palavra infeliz, esta).

Passem por lá, deliciem-se com os ensaios e editoriais das meninas (sim, a revista é predominantemente escrita por mulheres), mas não espalhem. Da última vez que a “garganta funda” deu com a língua nos dentes (bem, os trocadilhos…), foi o “gate” que se viu.

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Diagnósticos só no início do jogo.

Não é da minha autoria, mas tenho pena. Veio por mail, sem estar identificado, pelas mãos do Pai Itálico. Seja quem for o autor, é bem visto, sim senhor, é bem visto.

“Não há dúvidas que é de uma imensa falta de originalidade o espectáculo de inauguração do novo estádio do F.C.P. ter sido feito pelo Luis de Matos. É que, em jogos do Porto, tipos todos vestidos de preto, cheios de truques, e que antes da partida começar já sabem o resultado final, já são habituais.”

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Lições de português.

Porque é que provisório é uma palavra tão definitiva?

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Como nós.

Descubro, no Aviz, uma denonimação curiosa para as surpresas que interrompem a paisagem da blogosfera – relâmpagos, chama-lhes o Francisco. Como este, “Mortalidade: Desde que me apaixonei, tenho medo de morrer”. Visito o Classe Média, o trovão por detrás do relâmpago e descubro na caixa de comentários que também a Inês Pedrosa se emocionou com a verdade inevitável deste (quase) haiku. O Francisco José Viegas e a Inês Pedrosa, aqui nos papéis de Francisco e Inês. A distância é tão curta que nos imagino, aos quatro, sentados no alpendre da casa do Francisco a partilhar uma morcela, um Reguengos e as paixões que não nos deixam morrer.

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Divagação du jour.

Alienação, s.f. - perturbação mental, permanente ou passageiro, na qual se regista uma anulação da personalidade individual; loucura.

Se vem no dicionário, não pode ser mau de todo.

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O fantasma do Natal presente.

Mas afinal o que é que se passa com o Natal? De ano para ano, as superfícies comerciais antecipam cada vez mais a festividade com as cores da época e as decorações costumeiras numa tentativa (muito pouco natalícia) de apanhar distraído o consumidor incauto - "olha, bolas vermelhas, renas e pais natais, deve estar na altura de rebentar com o plafond do visa". O problema é que estes falsos estímulos surgem cada vez mais cedo e, muitas vezes, ainda andam os mais distraídos a tentar sair do verão de mansinho e já levam com o natal pelos olhos adentro.

Normalmente, até gosto do Natal, mas tudo o que é demais ou descontextualizado parece dar-me azia. Senhor Nicolau, faça favor de dar uma palavrinha aos seus duendes, que alguém lhe anda a gamar o Natal nas suas barbas. E, quando der por ela, pode ser que seja tarde demais.

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sábado, novembro 22, 2003

Morte Súbita Progenitora ou Como é possível?

Há já muitos anos que tenho uma dúvida. Como é que no universo disneyiano só existem sobrinhos e tios? Em Patópolis, por exemplo, o Donald (D.) tem três sobrinhos. A Margarida (M.) tem os mesmos três sobrinhos. O D. bem queria ter outra coisa em comum com a M., de preferência que implicasse suor e penas a voar. Portanto, e sabendo
desta aspiração, será que os sobrinhos do D. tratam a M. por tia à falta de melhor, como é ridiculamente comum? Não. Porque o D. tem um tio (Patinhas), que, se não fosse também tio genuino da M., ela não teria necessidade nenhuma de tratar por tio. Portanto: o Patinhas é tio de toda a gente. O D. é primo da M. e do Gastão. Estes, por sua vez, são todos tios das crianças, que vivem à guarda do D. O único que é normal neste molho de bróculos, é o Patacôncio: rico, solteiro, sem família. Nada de confusões. Depois, adensa-se ainda mais o mistério: todos eles têm a avó que mora no campo. Onde é que estão os pais? Eu tenho uma teoria.

Em Patópolis existe um virus, que aniquila os pais, mal eles se o tornam. Do género: "Parabéns minha senhora é um rapaz tragam o aparelho de massagens cardíacas esqueçam já é tarde de mais por isso é que eu não tenho filhos". Isto explica a inexistência dos progenitores. Por isso é que a M. está sempre a dar a nega ao D. e ao Gastão. Quem é que quer ir desta para melhor por causa de um pato? Então como é que eles lá estão? Simples. A resposta está na avózinha. Há muitos, muitos anos, ela teve um arraial de filhos e filhas. Como morava no campo, o virus não a atacou, por causa de umas linhas de alta-tensão, cujas emissões electro-magnéticas impediam um ataque viral. Não impediram o cancro do cérebro que a está a minar, mas isso já é outra história. O marido dela, morreu ao testar a nova ceifeira-debulhadora. A última coisa que ele disse foi: "Manual de instruções? Isso é para patos."

Os filhos e filhas foram todos para a cidade, onde acabaram, mas não sem ter filhos. Uma representante feminina, especialmente resistente, ainda conseguiu ter gémeos triplos (os famosos sobrinhos de todo resto), depois de um tratamento de fertilidade. Não era muito esperta. Mas esta teoria tem falhas. Onde é que se encaixa o Patinhas? Porque é que é o D. toma sozinho conta dos sobrinhos? Não há divisão de tarefas? Existe outra teoria. Por sinal (oh! espanto!) da minha autoria. É mais conspirativa, e surgiu-me devido ao mito / facto de os animadores da Disney inserirem frames menos católicos nos filmes para crianças, do tipo Pinóquio sem roupa a correr pelo prado verdejante, Pocahontas a depilar as axilas ou Corcunda de Nôtre-Dame a acariciar o sino do si-bemol. O mentor deles foi Walt Disney, que veladamente, recriou Sodoma e Gomorra. Retirou as referências que evitariam que os livros fossem para todas as audiências, e pronto. Entre a edição de cada livrinho aos quadrados, aquilo é todos com todos. E, para disfarçar, passa tudo a tio. Na verdade, o Luisinho é pai da Margarida. Não souberam isto por mim.

Outro dia, tropecei num arquivo menos-secreto-do-que-eles-supunham do arquivo secreto do FBI, que prova isto. Em 1951 (uma Quinta-feira, para ser mais preciso), o Rato Mickey pediu ao Walt Disney para este o separar da Minnie, ao que este ripostou "You must be fucking crazy" - Mickey prontificou-se a corrigir o equívoco: "No, I'm fucking Daisy".

*Asterisco

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quinta-feira, novembro 20, 2003

Estrelinhas entre linhas.

Sofro de um fascínio idiota por questões absolutamente irrelevantes. As estrelinhas dos críticos de cinema são um desses temas pelos quais deambulo em inócuas divagações. Indago-me sistematicamente sobre as razões que levarão os críticos a não atribuir classificação a determinados filmes.

Numa breve consulta ao DN constato que só o João Miguel Tavares se dignou ver o Jeepers Creepers 2. Curiosamente, no Público, apenas um crítico atribuiu também a parca estrelinha ao filme. O que levanta algumas questões para as quais gostaria de obter, de uma vez por todas, resposta. Os críticos de cinema farão uma pré-selecção de acordo com critérios pessoais? Ou assistirão apenas a filmes para os quais são convidados? A conceber esta hipótese, não estaremos perante um problema de ética jornalística? Não competirá a um crítico visionar todos os filmes em exibição? Qual a razão que levará o João Lopes a ter classificado o triplo dos filmes que o seu colega? E porque será que os filmes cujas estrelinhas formariam por si só uma gigantesca constelação, têm uma percentagem de assistência entre os críticos, substancialmente superior aos filmes de menor qualidade? Não fará parte do trabalho do crítico assistir às xaropadas cinematográficas, ainda que impregnados pelo som das pipocas?

Por último, mas não menos pertinente, parecer-me-ia de muito bom tom, que em vez do habitual hífen que me deixa embrenhado nestas especulações, a legenda destas tabelas incluísse a real justificação para a ausência de classificação: o de fugir, * mau, ** com interesse, *** bom, **** muito bom, ***** excepcional, # tenho um blog para actualizar e não vou perder tempo com filmes para consumo imediato, #1 não assisto a filmes com o Rui Unas, #2 sofro de incontinência e não vejo filmes de terror.

Etc.

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quarta-feira, novembro 19, 2003

Cozido com todos.

Fui ver o tal filme em que entra a Lúcia Moniz e saí de lá chocado com a forma como os portugueses são retratados - donos de casas de fado gordos, suados, untuosos e com farfalhudos bigodes de fazer inveja a muito Mohammed. O que mais me surpreendeu foi a precisão física do retrato - quem já espreitou a selecção nacional a jogar e deu uma olhada no banco vê de caras onde é que Richard Curtis foi buscar a inspiração.

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Asterisco, etc e tal.

Reparem: eu até gosto de ser o "rei da maionese" aqui da tasca, mas a verdade é que isto de escrever no Ponto e Vírgula sem amigos não tem nem metade da piada. Enfim, ainda pensei que uma boa dúzia de estagiárias generosas me enviassem o seu curriculum numa tentativa de preencher os posts por vocês deixados em branco, mas para além do Rob do "How To Enlarge Your Penis" e da Sherry do "Hot Asian Underage Babes", mais ninguém pareceu estar interessado no nosso marco de correio. À falta de "cheerleaders" pululantes, venha daí uma Vírgula, um Asterisco e um Etc, fáchavor. Obrigadinha.

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O céu nunca mais vai ser igual.

A verdadeira tragédia é a contida, a comum, a silenciosa. "Elephant", de Gus Van Sant, Palma de Ouro em Cannes, é de uma ingenuidade brutal e de um silêncio ensurdecedor. Faça chuva ou faça sol, ofereçam uma hora e meia do vosso tempo a esta polaroid - vão dá-lo por bem empregue.

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Declaração (não tão) pública.

Contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas por quem tenho uma admiração extraordinária. E contam-se pelos dedos de uma mão de um empregado numa serração (com vários acidentes de trabalho no curriculum) a pessoa que admiro acima de todas as outras. Obrigado. Por tudo.

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domingo, novembro 16, 2003

A bela e a bela.

Nicole Kidman é lindíssima. Nicole Kidman é, toda ela, leveza, fragilidade, elegância, determinação, charme e mistério. Nicole Kidman reinventa-se, filme após filme, construindo personagens com vida e personalidade próprias, sem deixar de ser Nicole Kidman. Em "The Human Stain" de Robert Benton, Nicole Kidman esforça-se por ser feia e desencantada. Mesmo assim (e talvez por isso...?), nunca a vimos tão fascinante. Ah, e o filme tem Anthony Hopkins e Ed Harris. Need I say more?

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Actriz ou atroz.

A inenarrável Odete Santos estreia-se no Teatro de Revista. Depois da notícia da tourné acústica dos Pólo Norte, creio estarmos perante um forte candidato a catástrofe do ano.

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Catarina Furtado, Sílvia Alberto, Lúcia Moniz.

Com tantas candidatas ao epíteto de "namoradinha de Portugal", e estando a pátria comprometida com os seus cidadãos, não estaremos perante um flagrante e gravíssimo caso de adultério?

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sábado, novembro 15, 2003

3 da manhã.

Não fui, às 3 da manhã, ao lançamento do livro do Borges. O "mea culpa" é digno de Cristo "himself", mas, como dizem os croatas, "águas passadas não movem moínhos". A verdade é que me lembrei do Luís Filipe porque são quase 3 da manhã, o mundo não mudou (longe disso) e só penso em como lá devia ter estado ontem. Como não estive, e são as tais 3 da manhã, fica aqui o abraço de ontem, outro de hoje e mais um com a promessa de um outro amanhã.

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quinta-feira, novembro 13, 2003

Água na boca II.

Perguntava-me a Dra. Charlotte Freud que iguarias é que eu tinha recusado. De facto, confesso que não sou muito de dizer que não a um desafio gastronómico (e isso inclui cobra, em Moçambique), mas ele há coisas que são uma questão de princípio, sobretudo extremidades - mão, língua, pés, orelhas e afins. De resto, de banana com feijão frade a iogurte com mostarda, já marchou de tudo um pouco. São servidos?

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Água na boca I.

Aqui há tempos meti-me num curso de cozinha ali em Campo de Ourique, numa loja/escola que dá pelo nome de Cozinhomania. Não que nunca me tivesse lembrado de o fazer, mas a verdade é que a iniciativa não partiu de mim, mas da gentileza da agência em que trabalho. Malas feitas, apetite aguçado e blocos de notas debaixo do braço, lá rumámos nós ao desconhecido.

Foram cinco aulas de "gastronomia do mundo" (chinesa, italiana - duas aulas - , indiana e mexicana), com especial destaque para a indiana (com uns hamburgueres de vegetais e umas beringelas no forno de comer e chorar por não haver mais...), que mudaram a minha forma de ver estas coisas da comida.

Agora, quando cozinho, não dispenso o manjericão, o caril "à séria", os vegetais (que usava com muito menor frequência), o parmesão fresco e outros pormenores que enriquecem os pratos de uma forma que nunca me tinha passado pela cabeça (e pelo palato).

Recomendo as aulas, a loja e, uns quarteirões mais abaixo, o melhor bolo de chocolate do mundo (numa loja com o mesmo nome). Se seguirem o conselho, evitem rir quando descobrirem que uma das iguarias das cozinha indiana dá pelo nome de "raita de banana".

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quarta-feira, novembro 12, 2003

A vida em directo.

Sobre o meu trabalho? Sobre a actualidade política? Sobre os amigos, os conhecidos, os livros, os filmes, os discos, os cafés a que não fui (mas a que gostaria de ter ido), as iguarias que recusei, as noites que passei acordado, os dias que perdi (ganhei?) a sonhar?

Para votar no tema que mais gostaria de ver explorado neste blog, por favor envie um SMS com a letra T (de tema) seguido do seu de eleição, do nome completo e do grupo sanguíneo. O custo por mensagem é de um clique. Amanhã, eu mesmo, em directo, prometo sentir-me chocado, impressionado, desiludido, abismado ou enternecido com a sua provocação.

O país e o mundo, todos os dias (ou mais ou menos), num blog perto de si.

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A loura e a casca de banana.

"Desde sempre que a clandestinidade é mãe de muitas emoções e tentações. Uma nova e enriquecida vida é o objectivo final de quem lhe recorre. Porém, não poucas vezes as desilusões são superiores às boas surpresas. Com o desbravar dos novos caminhos, chega-se com frequência a ruas semelhantes às que já eram conhecidas e olha-se para varandas com camélias que cheiram iguais às outras."

É do João, do Estranho Amor, mas não me importava que fosse meu. É curioso como os erros que cometemos com maior frequência são os repetidos. Ou como conta a historieta da loura que, perante a visão de uma casca de banana no chão, exclama, resignada "Oh, lá vou eu cair outra vez".

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My own private blog.

Ó calamidade, ó desastre, ó tragédia - 20 dias 20 com um blog só para mim. Vírgula, é natural que, no regresso, encontres algum cotão e as pantufas fora do sítio mas, de resto, vou tentar não desarrumar muito a casa. Vemo-nos daqui a uns dias.

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terça-feira, novembro 11, 2003

Licença,

Enquanto acumular dois empregos em part-time e uma pós-graduação, não consigo manter um web-log. São demasiadas justaposições.

Não prometo ser breve.

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Cá dentro e lá fora,

E eis que descubro Massamá, um outro país onde Maria Gabriela Llansol é estrangeira.

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Platão explica.

A cave, que nas alegorias surge associada ao obscurantismo, à ignorância profunda é, aqui, ao invés, profundamente redentora. O Hot fica num sítio indizível (só o Ponto conseguiria atrever-se a descrever as emoções e o ambiente com sucesso) para se ouvir uma música intemporal ou, como diria um autor cujo nome não me ocorre, "música para torturar imbecis". No Hot, não se assiste a espectáculos: entra-se em casa, onde há sempre alguém a tocar na nossa sala.
Recomendo a música, a proximidade e o espaço. Recomendo o quintal, no Verão. E recomendo que paguem sempre a entrada: é que a remuneração dos músicos depende exclusivamente da meia dúzia de tostões cobrada pela dita. Se creem não gostar de jazz, peçam para vos dar a ouvir "The touch of your lips", de Chet Baker ou "The melody at night, with you",de Keith Jarrett, entre um milhão de outras possíveis. Ou vão ver e ouvir os irmãos Moreira ou o Bernardo Sassetti no Clube.
Mas desçam as escadas devagar. É que, como bem avisou o Ponto, estas são muito íngremes.

O (Outro) Pai Itálico é mesmo Pai e é do Ponto.

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O exercício da ironia

Sou um devoto admirador do exercício da ironia. A ironia, como a História tão bem o comprova, tempera a crítica mordaz, o humor corrosivo ou o perfil de um poema. Há no entanto demonstrações da figura de estilo, inesperadas. A Faculdade de Letras decidiu publicar no Diário de Notícias de Sábado a lista de vagas disponíveis para a 3ª fase de acesso ao Ensino Superior. A Faculdade de Letras tem responsabilidades acrescidas na formação profissional dos seus alunos e deve recorrer à riqueza estilística da ironia, ainda que no gesto mais singelo, impondo-se como referência e exemplo superior. As saídas profissionais dos cursos publicados, estarão na sua esmagadora maioria associadas à via de ensino ou da investigação, áreas em excelente estado de saúde, como se sabe. Daí a inteligência na opção do Caderno de Empregos para a divulgação do anúncio.

Etc.

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sábado, novembro 08, 2003

Jogo de sombras.

Assistir a um concerto no Hot Club é um autêntico privilégio - a proximidade, a intimidade (entre quem toca e quem ouve), o próprio espaço, de uma clandestinidade deliciosa, faz-nos ouvir (por exemplo) o Monk com outros sentidos. Mas o mais curioso é mesmo o momento da entrada, o descer das escadas, tão simbólico do ritual que envolve o que dali para a frente se vai ouvir (e, sobretudo, sentir). Mesmo antes de conseguir identificar um rosto na multidão, são as sombras dos corpos (e dos copos) que anunciam uma descida, sim, mas aos céus.

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sexta-feira, novembro 07, 2003

(D)efeito especial.

Fui ver o "Matrix Revolutions" e confirmei as minhas suspeitas: o Keanu Reeves criado por computador é muito melhor actor do que o original.

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Birdcage.

A/O José Castelo Branco e a respectiva senhora (Betty Grafstein) foram catados na alfândega do aeroporto de Lisboa a tentar passar com uma batelada de jóias, sem as declarar. Betty saiu em liberdade ao fim de umas horas, mas a/o Zé passou a noite nos calabouços. Aparentemente, a decisão de ficar sob custódia foi do(a) próprio(a) Castelo Branco: "Eu estava preparada para ir para casa, mas quando ouvi falar em toque rectal pensei: ó Zé, fica mais um bocadito...".

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O (outro) Borges.

A minha história com o Borges é curiosa. Acontece que pessoa A conhece B que o conhece a ele. Acontece também que o Luís Filipe é um dos colaboradores mais curiosos das Produções Fictícias. E, sobretudo, acontece que o Luís escreve no Desejo Casar, em registos que oscilam entre o humorístico e a prosa poética (com tanto que vai aqui pelo meio), e as coisas que ele escreve são para mim. E para cada um de nós.

Ao vivo e a cores, conhecemo-nos na festa dos casadoiros, com a promessa de um almoço que dissipasse as curiosidades que, presumo, nos assaltam a ambos. Até lá, fico (ficamos todos) com as palavras do Borges, o Luís Filipe, num dos poemas que podem encontrar na sua estreia na poesia impressa. O livro dá pelo nome de "Mudaremos o Mundo Depois das 3 da Manhã" e tem edição oficial no próximo dia 13, com o selo da Tágide. Em primeira mão, um desses poemas, do Borges, o outro (coincidência curiosa, esta), já a seguir.

A NOITE DE AMANHÃ É UM DIA QUE TERMINOU ONTEM

Se

Pudesses
Escrever
Uma
Palavra
Em
Toda
A
Tua
Vida

E
Jamais
A
Pronunciar

Qual seria?

28 de Março de 2002, Sevilha (Espanha)


O mundo muda a partir do próximo dia 13. Às 3 da manhã, claro.

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quinta-feira, novembro 06, 2003

Os amores dele.

O João (dos dois posts anteriores) é também um designer lírico, bizarro e contemplativo. Se não acreditam, espreitem aqui e conheçam mais de perto este amor que, de estranho, tem pouco ou nada.

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Alegria no trabalho.

Eu e o João, mais dois dedos de conversa na agência.

João: "Porque a maioria dos críticos de cinema são uns ressabiados que fazem um esforço por dizer mal!"
Eu: "Mas tens que respeitar o facto de cada um ter a sua opinião e de esta poder não coincidir com a tua..."
João: "Pá, mas os críticos devem imiscuir-se um bocado da sua opinião. Por exemplo, a crítica considera o Von Trier um iceberg do cinema europeu."
Eu (interrompendo-o): "O quê, frio e impenetrável?"


E, respondendo às perguntas de alguns comentadores, sim, no intervalo das discussões sobre música e cinema, fazemos um esforço por trabalhar. Mas, como diria o Pipi, sem exageros, cara*ho!

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Vozes de burro.

Numa conversa na agência.

Eu: "Já reparaste que os grandes compositores não têm grandes vozes?"
João: "Tens razão? olha o Bob Dylan..!"
Eu: "E mesmo o Bowie já cantou melhor."
João: "Quem canta muito é a Céline Dion."
Eu: "Essa canta demais."

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quarta-feira, novembro 05, 2003

Urologias.

Na banca de jornais, a levantar um conjunto de fascículos d' "As Aventuras de Tintim" que o Público tem vindo a lançar nas últimas semanas.

"Bom dia! Vinha buscar os meus Tintims."

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terça-feira, novembro 04, 2003

E o prémio vai para...

Anteontem, na Trafaria, um barco foi perseguido pela Polícia Marítima por andar, ilegalmente, na apanha da amêijoa. Ora, durante a fuga, o barco embate nas vagas e vira-se. Os pescadores (ILEGAIS, recorde-se) safam-se e são ajudados por outra embarcação. Esta é a minha parte favorita - os perpetradores exigem que a polícia pague os prejuízos do barco naufragado sob o pretexto de que "se a polícia nã tê vindo atrás de nós, a gente nã se tinha virado!". Bem visto. Já estou a imaginar o precedente:

"Bando de violadores em série processa polícia por despiste automóvel. De acordo com o líder do gang, responsável por mais de 57 actos de abuso sexual, e apanhado em flagrante delito pela Polícia Judiciária, "a gente só se espetou porque o Subaru Impreza da Brigada de Trânsito vinha muito depressa e obrigou-nos a andar a mais de 170 com um Ford Fiesta.. ora, isto é um crime, pá, uma autêntica tentativa de homicídio!". Bem visto. O Nobel da Estupidez para o senhor do barco naufragado, por favor.

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Ai as minhas ricas peles.

Versão "Reader's Digest" da coisa - Cinha Jardim aparece vestida com peles genuínas na campanha publicitária do Saldanha Residence, em Lisboa. Os defensores dos direitos dos animais insurgem-se. A Cinha diz, parafraseando Ferro Rodrigues, que se está a cagar, que as peles são "chiquíssimas". O director de comunicação do referido centro comercial retira a campanha do ar e desculpa-se com o cliché "errar é humano".

Ora, há quem defenda os direitos dos animais e há quem defenda os direitos da Cinha Jardim. Afinal, não vai tudo dar ao mesmo?

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Freud explica.

Para comemorar o final das obras em mais um troço do Metro do Porto (apelidado por alguns antropólogos de "big foot" - toda a gente já ouviu falar, mas ninguém acredita enquanto não vir..), dois ou três trabalhadores resolveram comemorar o feito atirando-se para uma gigantesca poça de lama, criada pelas obras, e, posteriormente, chafurdando na própria, ao ritmo de sonoras gargalhadas dos colegas (passou na SIC, ontem).

Confesso que fiquei vagamente excitado com o cenário. Foi o mais perto que estive de ver duas gémeas suecas a lutar "wrestling" na lama. Só que não eram gémeas, nem suecas. Mas havia lama, muita. E o Valentim Loureiro, claro. Uhn.. kinky...

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segunda-feira, novembro 03, 2003

Fim-de-semana

Desconheço a aleivosa criatura que está associada à origem da expressão fim-de-semana. Desconheço, felizmente.

O fim-de-semana é a fórmula-mãe de todos os stresses. Para o fim-de-semana está sempre reservado um jantar especial com um grupo de amigos mais ou menos desconhecido. Uma festa de aniversário. Uma prolongada noite de galhofa e bisbilhotice. A reunião de trabalho diluída no aroma de um tinto.

O fim-de-semana é o alvo preferido dos colegas de infância para inóspitos momentos de camaradagem. Com as mulheres e os maridos dos colegas de infância. Com os filhos dos colegas de infância.

No fim-de-semana a família aguarda notícias. O almoço de convívio. A falsa celebração da paz de espírito familiar. A ausência de novidades. As conversas de ontem, de há um mês atrás. As conversas do Natal passado: “Como cresceste, sem que déssemos por isso”.

Ao fim-de-semana a consciência é implacável: o livro que as palavras interromperam, os filmes que a monotonia da segunda-feira fez esquecer, o lúdico passeio de bicicleta, o museu que antecipou o fim da exposição, a praia, a bucólica paisagem que nos restitui a convicção de que o fim-de-semana não deveria pura e simplesmente existir.

Para o fim-de-semana confluem os excessos, as ressacas, a cozinha desleixada, as noites mal amanhadas com parceiros desconhecidos, o desmazelo numa música imperceptível, a incúria de um beijo mal disfarçado.

O prazer morreu no fim-de-semana.


Etc.

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Presença calada,

O silêncio das palavras escritas (em SMS, num poste, na tua caixa do correio) é tudo o que tenho para oferecer no minuto da dor alheia. Estas são para ti que ainda ontem perdeste um bocadinho da tua história.

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Ponto, Vírgula, Asterisco... & Etc.,

Há amigos que precisam de nós, um emprego a mais quilómetros de casa, uma casa em obras, a vida há tanto tempo encaixotada. Mas não foi só a falta de uns minutos para o blogue que nos levou a convidar outros a postarem aqui em itálico. A verdade é que encontrámos nas caixas de comentários afixações que nos pareceram demasiado ocultas. Por isso, depois do Asterisco, anunciamos com prazer a estreia do Etc. E, previna-se o leitor, se o primeiro saiu mais ao Ponto, permito-me postar este, que sai mais à Vírgula. No day after, seguem-se considerações sobre o fim-de-semana.

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A crise ou a literatura,

Procuro uma razão para o alívio diante da perspectiva de um emprego num centro comercial da periferia: Lobo Antunes ou a recessão?

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O desemprego do riso,

Quando abro a janela verde e me surpreende ainda, uma e outra vez, a graça natural do Ponto, pondero, durante o minuto e meio que dura a gargalhada ou sorriso deliciado, demitir-me.

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Um outro outono.

The sun shines high above
The sounds of laughter
The birds swoop down upon
The crosses of old grey churches
We say that we're in love
While secretly wishing for rain
Sipping coke and playing games

September's here again
September's here again

David Sylvian, "September"


Não são as folhas caducas nem as golas altas, os vendedores de castanhas ou a brevidade dos dias. É a brevidade da vida, anunciada por um outro outono.

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