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quinta-feira, abril 01, 2004

Ensaio sobre um ensaio.

É curioso como, de livro para livro, José Saramago parece testar os limites da paciência dos seus leitores, recorrendo a uma parafernália de insultos velados o que, imagino, lhe deve dar um gozo tremendo – analisando o sub-texto dos títulos das obras do nobél nacional, há um nítido padrão jocoso, sobre o qual urge reflectir. Senão, vejamos.

"Que Farei com Este Livro?" (Aqui, Saramago desafia o leitor a fazer algo com a obra, mas recusa-se a dizer o quê; o meu palpite seria “brasas para o entrecosto”, mas isto sou só eu a falar.)

"Levantado do Chão" (Mais uma interpelação em tom de desafio: Saramago parece interrogar o seu leitor “como é que ainda te aguentas em pé depois de ler isto?”, mas o leitor, incauto, decide ignorar a provocação e continua a esgotar os romances do nobél.)

"Os Poemas Possíveis" (Se estes são os possíveis, imagino os impossíveis – deve ser tipo o “Ulisses” do Joyce, mas em braille.)

"Objecto Quase" (Mas que raio de título é este? Parece uma daquelas peças de teatro experimental em que os actores cospem no público depois de matarem um coelho em palco como metáfora para o nascimento da luxúria.)

"Provavelmente Alegria" (Depois de comprar esta merda, provavelmente não.)

"Deste Mundo e do Outro" (É, lá isso, é deste mundo e do outro como é que ainda consegues enganar mais uns pobres incautos que se preparam para esgotar a primeira edição do “Ensaio sobre a lucidez”. É um bocado como o mistério de Roosevelt.)

"A Jangada de Pedra" (Mais um título a testar a nossa paciência – toda a gente sabe que a pedra não flutua, até a malta de direita.)

"História do Cerco de Lisboa" (Como é que ele sabe - por acaso esteve lá? É como aqueles tipos que dizem que a Moda Lisboa foi de doidos e passaram o fim de semana no Campera do Carregado.)

"Ensaio sobre a Cegueira" (Este então é uma afronta gravíssima – para além de fazer pouco dos invisuais, está nitidamente a provocar o incauto leitor: “para comprar este mono, só podes ser cego”.)

"Todos os Nomes" (Como “todos os nomes”? É daqueles livros que se compra antes de ter um filho, para ver se já legalizaram “Derlei”, “Jardel” e “Zelda Vanessa”, só pode.)

"O Homem Duplicado" (Este só pode ter sido escrito depois de uma valente narça de absinto: o homem duplicado vivia numa casa a dobrar, tinha duas mulheres – o que até nem me parece mal – e quatro mãos. Se não for assim o livro, vou eu escrevê-lo que parece-me ver aqui um caminho...)

"Ensaio sobre a Lucidez" (Para os que não perceberam com a “cegueira”, toma lá a boquinha a dobrar: “se não és cego, deves estar com os copos ou muito drunfado para comprar esta merda”. Ou isso, ou ser da família real portuguesa, o que vai dar ao mesmo.)

(Hífen, o itálico tracejado)

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