A pontuar desde 2003.

sexta-feira, abril 16, 2004

O gosto dos outros.

Gostava tanto de ser interessante, de atingir esse nirvana da sede de conhecimento, em que os ténis e as conversas parvas dão lugar a debates sobre o estado da nação e novos autores da poesia cubana.

Gostava de evitar os temas fúteis, inúteis, dispersos, diversos que só servem para maçar e cansar o que já saturado estava. Gostava de guardar este cérebro e esta memória (curta) para o que realmente interessa, como a história e a organização geo-política do mundo. Gostava de ser culto, de devorar a minha biblioteca como devoro os folhetos do LIDL e dos Pneus Cardoso, que fazem o alcatrão ter outro gozo.

Gostava de ler mais, pensar mais, falar menos, dormir menos, escrever mais, tocar mais, comer menos, rir menos, dar mais, receber menos. Gostava de gostar de coisas de que não gosto e só Deus sabe como gostava de odiar coisas às quais estou, incompreensível e irremediavelmente, ligado.

Gostava de ter um gosto diferente do meu – gostava de ter o gosto dos outros.

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