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sábado, novembro 06, 2004

Destroços.

A meia dúzia de passos do sítio onde trabalho há um enorme baldio que em tempos foi ocupado por um armazém, dos idos da Revolução Industrial. Os donos, sabugos, permitiram que um incêndio deflagrasse no seu interior, alastrando-se mais tarde à fachada, um marco arquitectónico do dito período. A Câmara Municipal de Lisboa, num surpreendente acto de lucidez, embargou o que parecia ser uma demolição total do edifício, obrigando o proprietário a reconstruir a parte da fachada que tinha ruído, deixando o miolo num enorme vazio.

Toxicodependentes vários, oriundos do Casal Ventoso, aliviam ali os seus sofrimentos, chegando mesmo a pernoitar no espaço. Aos sábados e domingos de madrugada, as ruas circudantes enchem-se de vampiros oriundos de uma discoteca próxima, óculos escuros a cobrir o que a noite arruinou, espelho e cartão de crédito nas mãos para aliviar outras dores, outros vícios.

No meio de tamanha azáfama, o baldio, onde se encontram, amiúde, circuitos electrónicos, placas deformadas pelo calor das chamas, fósseis com milhares de anos de histórias para contar, resquícios de um tempo que, um dia, encheu aquele amontoado de terra e tristezas.


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