A pontuar desde 2003.

sábado, fevereiro 28, 2004

Grandes dúvidas da humanidade.

Nunca se interrogaram quando, por alguma eventualidade, conduzem em Lisboa fora da hora de ponta (digamos, 4 da tarde de um dia de semana), sobre o trânsito que povoa as ruas da cidade? Não é só "Como é que possível estar tanto trânsito a esta hora...?", mas sobretudo "Eu quero o emprego destas pessoas". Nos países do norte da Europa, o dia de trabalho vai das 7/8 da manhã às 3/4 da tarde. E o nível de desenvolvimento desses países é astronómico, sobretudo quando comparado com o nosso.

Está explicado o nosso reduzidíssimo índice de produtividade - quando os noruegueses estão a sair do edifício climatizado onde trabalham, milhares de portugueses estão a passear de carro pelas ruas de Lisboa.

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quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Aldeia global.

Como diria Leonardo DiCaprio no bestialmente maltratado "A Praia", de Danny Boyle, o mundo divide-se em dois tipos de pessoas - os turistas e os viajantes. O viajante integra-se na cultura dos países que visita, deixando de ser um de "nós" e transformando-se num "deles". O meu pai, viajante inveterado, liga-me do ponto mais afastado de Portugal no globo terrestre, Auckland, na Nova Zelândia.

Entre cada pergunta e respectiva resposta, há um hiato de cerca de três segundos, o que não é de estranhar, considerando os 20.000 kms e as 12 horas que nos separam dos nossos antípodas. Nos meus verões de meninice, recebia uma carta dos meu pais por semana, aproximadamente, algumas delas acompanhadas por uma nota de 100 escudos, para os gelados e "tio patinhas". Agora, recebo chamadas no meu telefone móvel. 20.000 kms, 12 horas e 12 anos depois.

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Axioma du jour.

Nem tudo o que luz é ouro. Às vezes, é de 100 Watts.

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Tradução simultânea.

Unioniin tänä vuonna liittyvät kymmenen maata ovat ilmoittaneet, keiden kansalaistensa ne toivovat toimivan komissaareina puolen vuoden ajan 1.5. alkaen, kunnes uusi komissio nimitetään.

Até já.

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Perdidos e achados.

Sou uma sombra, uma sobra, um rosto, um resto, um par de mãos que tacteiam no escuro, não escrevo, descrevo, absorvo, absorto os sinais que o mundo me oferece e devolvo, envolvo e revolvo os outros, os que o coração esconde, mostra, esconde, onde, não sei, perdi-os, mas já os encontrei. Estão aqui, mesmo ao pé de ti, mesmo ao pé de mim.

Este taralhoco jogo de palavras deliberadamente críptico é dedicado à Camila Coelho, a quem roubei (e mal) a prosa poética sem nexo aparente, e ao Zé Mário, a quem pedi emprestada a expressão tão sua "post deliberadamente críptico".

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terça-feira, fevereiro 24, 2004

pontovirgula@megamail.pt

Ao ler a contribuição do Etc., dois posts baixo, pensei para com os meus botões "Não era fixe se tivéssemos mais pessoas a sair da caixa de comentários e a enviar-nos textos porreiros, como este, por mail?". Então - não era?

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A vida, esse ascensor.

Visito a casa de uma amiga que vive nos arredores de Lisboa, num pequeno aldeamento com requintes de luxo. Para além dos já banais lareira, aspiração central e banheira com hidromassagem, este prodígio da construção civil brinda-nos com música ambiente nas escadas e nos acessos ao dito. Ao ouvir Richard Cleyderman a interpretar Bonnie Tyler ao piano, fico sempre à espera que alguém me cutuque no ombro, enquanto ouço, "Dá-me licença? Saio já neste andar".

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Fora de moda

O álbum a que terei recorrido mais vezes nos últimos meses é uma pequena preciosidade lusa e no entanto, passou praticamente despercebida aos ouvidos de muita gente. “À Porta do Mundo” de Filipa Pais, reencontra os caminhos, afinal tão próximos, da música tradicional portuguesa (a genuína) com o poder das palavras e a delicadeza de uma imaculada interpretação.

Por muitas tendências que a moda musical possa ditar, este disco recolhe o que de melhor e mais autêntico o passado nos ensinou, numa recriação de grandes canções sem data de validade. Sem falsos saudosismos, e numa época em que os 80’s regressam em força mesclados em improváveis fusões sonoras, parece-me paradoxal a dificuldade que músicos e bandas actuais têm em definir uma identidade, perante álbuns como o de Filipa Pais, revelador em simultâneo de um
singelo bom gosto, empenho e profissionalismo, pouco comuns por estes lados.

O sucesso comercial terá passado ao lado deste fabuloso disco. Ficam porém as canções guardadas eternamente nos lugares que as suas palavras esboçam. Porque a intemporalidade é a verdadeira porta do mundo.

Etc.

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domingo, fevereiro 22, 2004

O ópio do povo.

A abertura do colosso nórdico do mobiliário IKEA, ali para os lados da zona industrial de Alfragide, foi adiada por tempo indefinido - é que os acessos ao mesmo teimam em estar concluídos. Ora bolas, lá temos nós que esperar mais três meses para podermos ocupar os domingos convenientemente. Ele é só coisas para arreliar um gajo.

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Para a outra margem.

Visito, pela segunda vez na mesma semana, a margem sul através do comboio sob a Ponte 25 de Abril. Coberta por um véu de um cinzento indistinto, a minha Lisboa praguejava dores desconhecidas sob a forma de raios, coriscos e trovoadas. Atravesso o rio, mergulho no breu do túnel que atravessa as portagens e, mal surge a luz do dia, surge sob a forma de uma solarenga tarde de primavera, ao contrário do que o clima lisboeta poderia dar a entender.

Quando os Jamufega anunciavam a ponte como uma passagem para a outra margem, sempre atribuí à passagem um sentido figurado. Erro meu.

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Errata.

Depois de ler com a devida atenção o post mais abaixo, "Vaidade à discrição (...)", percebi que tinha ligado o modo de escrita cáustico no turbo. Parece-me agora, com a devida distância, que exagerei. Além disso, e como relembram o Etc. e a Dra. Charlotte (nos comentários do dito), quem se dá ao trabalho de analisar tão pormenorizadamente a conduta de alguém é porque tem um interesse escondido na personagem. Spooky...

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sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Quem te avisa.

"Best Of", o álbum de estreia de Gomo, Paulo Gouveia disfarçado de tangerina, é o verão que teima em chegar.

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quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Vaidade à discrição para a mesa do canto.

Em noite de labuta, decido fazer uma visita ao japonês cá da rua (não ao septuagenário, mas ao restaurante), à procura de inspiração no fundo de uma taça de sakê. Entre um maki e outro, pareço reconhecer uma silhueta conhecida. Infelizmente, era mesmo verdade.

Sei lá, é que não há coincidências. Partilhei o mesmo espaço físico com a Nobel das banalidades, Guida Pinto ou, se lhe quisermos atribuir uma outra importânica, Margarida Rebelo Pinto. A alma de pássaro trincou um ou outro sashimi, riu moderadamente e fez pose durante pouco mais de uma hora. Depois, estendeu-se a passadeira vermelha e a estrela (de)cadente desfilou porta fora.

É curioso como a mim os pavões sempre me pareceram galinhas com problemas de identidade.

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terça-feira, fevereiro 17, 2004

Árvore de família.

Estou aqui sentado com o meu irmão ao meu lado enquanto, qual passagem de testemunho, ajudo o petiz a dar os primeiros passos na blogosfera. O ensaio dá pelo nome de Menores de 67 e mora aqui. São 13 anitos, repletos de tudo aquilo que fui, com a candura de quem tem a vida toda pela frente. Isto sim, meus amigos, é orgulho.

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segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Ver ou não ver, eis a questão.

"Almost Famous" ou "Lost In Translation" - é esta a minha dúvida para uma noite de cinema em casa, é esta uma boa parte da história da minha vida.

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domingo, fevereiro 15, 2004

Antologias III.

Mais discutível, mas de cortar a respiração, o "Roxanne" dos Police transfigurado pelo argentino narcoléptico da "trip" de duas horas e pouco de Baz Luhrman, "Moulin Rouge". Arriscado, perigosíssimo e avassalador.

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Antologias II.

Mais recente, mas merecedor do título "clássico instantâneo", a interpretação "underacting" de Bill Murray, sobretudo ao abalançar-se, com o desencanto de quem não tem nada a perder, ao clássico dos Roxy Music, "More Than This".

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Antologias I.

Jake Gyllenhall a descer de bicicleta a colina sobranceira à sua casa, de madrugada, na sequência de abertura de "Donnie Darko", ao som de "The Killing Moon", dos Echo & The Bunnymen. Antológico, genial, imperdível.

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Bloqueio de blogger.

Persiste, ainda, a angústia do ecrã em branco.

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quinta-feira, fevereiro 12, 2004

A urgência do som.

Há canções que despertam em mim uma necessidade suprema de se fazerem ouvir, como se dessa audição resultasse o próprio destino da humanidade. Calha que hoje, ao passar pelo "discman" o fabuloso "April", o disco de estreia do nosso compatriota Old Jerusalem, não pude passar ao lado da urgência que em mim despertou o fabuloso "Call". Não se traçou aqui nenhum destino de nenhuma humanidade, mas lá que se fez história na música, isso agora...

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segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Nonsense nocturno.

Os cães ladram, a caravana passa. Porra, devia ter instalado vidros duplos.

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sábado, fevereiro 07, 2004

Sonos trocados.

Falo com o meu bom amigo João sobre o sono. Diz-me ele que Leonardo Da Vinci dormia não mais do que um par de horas por noite. São assim os espíritos irrequietos - não suportam o descanso, evitam a contemplação, fogem à solidão do cerrar de olhos.

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Ida e volta.

Nas viagens, nem todos os regressos escapam incólumes ao que por lá se vive. Vai-se com medo, regressa-se com o cansaço, leva-se o peso, traz-se a leveza, transporta-se o arrependimento com a esperança que se extravie no porão. Há a ida e há sempre um regresso tão ansiado como inesperado.

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sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Apneia.

Trabalho, trabalho e afazeres diversos impedem-me de disponibilizar o espaço mental necessário para postar. Prometo o regresso, breve, para gáudio de alguns (sim, mãe, eu prometi que falava de ti...) e infortúnio dos restantes. Ou como dizia o outro, das duas, três: ou volto, ou não, ou talvez.

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terça-feira, fevereiro 03, 2004

A natureza dos outros,

São imprevisíveis os encontros lincados. Há tanto tempo que os sigo e foi o Luís quem acenou primeiro.

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Comichão,

Há pessoas que são sensíveis às combinações de cores – insólitas e interditas. Eu deixo-me afectar pelas combinações de letras. Esse D maiúsculo que aparece quando há apenas um dedo no ar, tira-me do sério. O que é difícil: ao que consta, a seriedade é o posto da Vírgula.

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segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Batotice não há cá,

A Vírgula actualizou o blogue com retroactivos. Mas isso foi só porque ainda não dá para ligar o Blogger à mente e postar directamente das ideias.

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domingo, fevereiro 01, 2004

Problemas domésticos com a identidade,

O que mais me incomoda no rádio novo não é recusar-se a sintonizar a TSF ao fim de uma semana de "Sinais". O que me deixa perplexa, indignada, mas, acima de tudo, de mãos atadas, é o facto do aparelho hesitar na sua função. Quer ser uma batedeira, concluímos ao quarto CD. Fá-los girar a uma velocidade alucinante e acompanha a dança com o zumbido familiar. O medo que dali resultasse uma consistente maionese impediu-nos a tempo, mesmo antes da quinta tentativa.

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Ponto da situação.

Vou a Madrid e já venho.

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