A pontuar desde 2003.

quarta-feira, março 31, 2004

Como eu costumo dizer.

Já se cruzaram com estas pessoas na estrada de vida, com certeza. Infelizmente, são uma espécie em vias de expansão e tudo o que dizem ganha honras de dogma - só isso pode explicar a proliferação da tão frequente, tão irritante e tão virulenta expressão "como eu costumo dizer". Analisemos, então, a coisa ao pormenor.

Por exemplo, Oscar Wilde ganhou o direito de dizer "como eu costumo dizer" (agora não, que está em avançadíssimo estado de decomposição) - afinal, o homem que se recusava a envelhecer passava a vida a dizer coisas bestialmente interessantes que todos nós, pelo menos uma vez na vida, já tivemos a tentação de citar. Logo, tudo o que ele disse é passível de ser uma frase que "se costuma dizer".

Temos então que, excepto Oscar Wilde, Virgina Woolf ou Fernando Pessoa, mais ninguém parece ter a autoridade para "costumar dizer" o que quer que seja. Muito menos alarvidades disfarçadas de verdades universais. Ou, como eu costumo dizer, quem tem telhado de vidro deve estar mas é caladinho.

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Para começo de conversa.

(Este é especialmente dedicado ao Etc.)



Não especialmente encorpado, mas frutado q.b. e um vinho que não envergonha, apesar da sua juventude. Além disso, estava em promoção, no sítio do costume. Para começo de conversa, serve?

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terça-feira, março 30, 2004

Enquanto o cozido não chega à mesa.

(Post dedicado à Charlotte e ao Etc., em jeito de "até quarta".)



Salada de salmão, funcho e laranja.

1 embalagem de salmão fumado
2 laranjas
1/2 funchos
Vinagre balsâmico
Pimenta
Sal
Azeite


Corta-se o salmão em quadrados pequenos e o funcho em pequenas rodelas. Arranja-se as laranjas de forma a aproveitar o sumo, componente essencial da receita. Deve evitar-se utilizar as partes fibrosas da laranja. Misturar tudo muito bem, devidamente temperado a gosto. Servir frio, de preferência numa noite de verão, ao ar livre, com o horizonte como única linha temporal.

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And now for something not completely different.

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segunda-feira, março 29, 2004

Fashion rules?

Ainda na ressaca da Moda Lisboa, esse Portugal dos pequeninos dos grandes eventos de moda, o almoço gira em torno da eterna discussão – afinal, os gostos discutem-se ou não? Um exemplo: este ano, dita a dita cuja que os sapatos de salto alto amarelo periquito e as perneiras “à lá Flashdance” rosa-choque são o último grito. Digo eu: são o último grito, sim senhor, mas de susto. E por falar em rosa-choque, o único choque aqui é o de ver a audácia de semelhante combinação. Até aqui, estou de acordo com o João: a moda não passa de um passageiro fenómeno social.

Mas a verdade é que, ainda na moda, a determinação com que se usa determinada peça ou acessório é meio caminho andado para o sucesso do conjunto. Três palavrinhas para vocês: Sarah Jessica Parker. É indiscutível que a Carrie de “O Sexo e a Cidade” é a rainha da “coolness”, sobretudo, pela convicção com que mistura folhos com transparências e ténis all star com vestidos de gala.

Portanto, há de tudo. A moda, fenómeno social, fogueira das vaidades, recheada de Josés Castelos Brancos, Joaquins Monchiques e Margaridas Rebelos Pintos e há a moda convicta, natural por ser “blazé”, mais subtil, mais difícil de alcançar, reservada a uma imensa minoria – todos aqueles que se olham ao espelho, todos os dias, e acham que a moda, um dia, ainda há-de passar de moda.

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O doutor recomenda.

Com saudades dos Depeche Mode, dos New Order, dos Joy Division, dos Happy Mondays? Junte-se uma pitada de Air, outra de Rinocerôse, consuma-se sem reservas, várias vezes ao dia e dê-se crédito ao trio de Alcobaça por fazer um disco assim, hoje, em Portugal.

“The Club”, dos Loto, numa farmácia Valentim de Carvalho (preço de amigo…) perto de si.

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Post excessivamente confessional.

A blogosfera é, de facto, um "não sítio" curioso. Nenhuma das pessoas que mantêm blogs fazem disto a sua profissão. Que eu saiba, ninguém aqui é remunerado pelo que faz. Para além disso, a maioria terá um "day job", com o qual estará mais ou menos satisfeito, mas que, seguramente, lhe roubará muito do seu tempo útil - basta estarmos atentos às horas a que a maioria dos posts são afixados por aqui. Muitas vezes, passam-se semanas, meses, sem que recebamos um e-mail, excepto ofertas para aumentarmos o tamanho dos nossos membros (o que só poderia, hipoteticamente, interessar a uma das metades deste blog). Graças ao enetation, sempre temos algum feedback dos nossos leitores o que, confesso, é uma massagem tailandesa ao ego, à alma, ao âmago da vontade.

Mesmo assim, escrevemos. Mesmo assim, roubamos tempo aos livros que nos esperam pacientemente numa mesa de cabeceira empoeirada. Mesmo assim, jantamos à pressa, escapamos ao zapping, mordemos a nossa vida familiar por meia dúzia de linhas soltas que, quem me dera, fossem diárias. Porquê? É precisamente isso que pergunto a mim próprio, todos os dias, sobretudo desde que a Vírgula meteu a sua licença sem vencimento. Neste momento, por vocês, sobretudo por vocês. Mas também por mim, claro, que escrevo porque não sei fazer outra coisa. Ou melhor - porque nada me é tão urgente.

Agora que já nos conhecemos melhor, e se fôssemos todos beber um chá de menta um dia destes?

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quarta-feira, março 24, 2004

Amigo d'ouvido.

Imerso no fantástico mundo do trabalho, viajo pelos sons dos inseparáveis Maria João e Mário Laginha, pela mão do fabuloso "Undercovers", uma mão cheia de versões improváveis, deliciosas de tão improváveis que são. Descobri há tempos que a ideia de fazer um álbum de "covers" muito "under" partiu do amigo comum de ambos, Nuno Artur Silva. Desconfiados, Maria e Mário alinharam, confiantes na confiança de quem lhes quer bem. O resultado não poderia ter sido mais seguro, de tão imprevisível que se tornou.

"Blackbird" vai de Liverpool a Maputo em pouco mais de quatro minutos, "Wake Up Dead, Man" leva Dublin à Islândia, terra de geisers e vulcões e até "Corazon Partio" faz de Alejandro Sanz uma cuba livre, com anca rodada a acompanhar. Com amigos assim...

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Eucaristia à portuguesa.

Correndo o risco de passarmos de "Ponto e Vírgula" para "Dois Pontos e Vírgula", adenso-me na discussão gastronómica e partilho com os nossos deleitados leitores um pequeno segredo, que só eu e mais um milhão de comensais conhecemos (toparam a expressão à João Gobern?) - o cozido à portuguesa do Painel de Alcântara.

Todas as quartas-feiras, legiões de fiéis peregrinam a tamanho local de culto para prestar vassalagem ao melhor cozido de Lisboa e arredores. As couves, perfeitas, o arroz de sangue, cozido na água dos enchidos, de comer e chorar por mais, os próprios dos enchidos, uma dádiva dos céus e de bradar aos próprios. Aconselham-se as reservas, os estômagos devidamente forrados por anos de experiência gastronómica e um excelente suco gástrico para ajudar à digestão.

A eucaristia repete-se ao sábado, ao almoço e ao jantar. Amén.

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Adenda ao axioma du jour.

Não satisfeito com o rodízio, já a queimar pestanas, Deus nosso senhor fez um derradeiro "forcing" e criou a vitela barrosã.

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segunda-feira, março 22, 2004

Amigos, amigos.

Como já devem ter percebido, o ritmo da "postagem" por estes lados anda a piscar o olho à irregularidade. Quando me sinto especialmente desanimado ou cobarde, lembro-me da Lia e do João e penso "bem, se desisto, estes dois dão-me cá um raspanete...". Meus queridos amigos, obrigado por instilarem em mim o medo necessário para continuar a escrever. Se a coisa descambar, basta um lembrete do tipo "parto-te as rótulas, ó óculinhos de uma figa" e ele é post garantido.

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Axioma du jour.

E no sétimo dia, mesmo antes de arroxar, Deus criou o rodízio.

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Cobrador de manga cava.

Ao que parece, a Valentim de Carvalho Comércio e Indústria (ou coisa que o valha) estava a dever uns trocos a uma empresa de trogloditas, perdão, seguranças, que dá pelo nome de Echelon (megalomania? nahhh!). Vai daí, e devidamente protegido pela lei, um solicitador magrito cujo nome agora me escapa vai executar a cobrança, acompanhado por um grupo de seguranças, não vá o diabo tecê-las. O mais curioso é que os trogloditas que o acompanham pertencem à empresa lesada, a Echelon, ou seja, a parte interessada.

Imaginemos, por instantes, que todas as decisões judiciais eram executadas por um funcionário do ministério da justiça, muitíssimo bem acompanhado pelos lesados - será que esta promiscuidade causa comichão a mais alguém ou o problema é só meu? Ah, só por curiosidade, o material penhorado nem sequer pertencia à empresa devedora. Mas também, com uns trícepes daqueles, quem é que precisa de justiça?

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terça-feira, março 16, 2004

Esplendor cinematográfico.

"Ordinary life is pretty complex stuff" desabafa Paul Giamatti, aliás Harvey Pekar, em "American Splendor", a adaptação cinematográfica da banda desenhada com o mesmo nome. E o mais curioso nesta aventura em forma de filme (que é fabuloso, por sinal) é mesmo a forma como incorpora a realidade documental no campo da ficção e vice-versa, construíndo uma narrativa não linear em que as personagens se cruzam com os actores que as interpretam na tela.

A vida contada por quem a vive com o carvão na palma das mãos. Imperdível.

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TV Guia.

Ontem, à espera de mais uma pérola televisiva (das poucas, aliás, da televisão nacional) - falo, claro, dos "Sete Palmos de Terra" - deparo-me com um O.T.N.I. (Objecto Televisivo Não Identificado). Vislumbrei, aqui e ali, a extracção de umas bolas, topei que a anfitriã da coisa era a Serenella Andrade (mau augúrio, portanto), mas o objecto só tomou a dimensão de genuinamente assustador quando uma voz-off e a Serenella começaram a graçolejar em conjunto, como bons colegas da Repartição de Finanças do 13º Bairro Fiscal.

Depois do martírio (com o qual, aliás, me regozijei), ficam duas ou três questões preementes por responder:

1. A Serenella Andrade não passou já a idade da reforma mais de três vezes?
2. É mesmo absolutamente essencial transmitir a extracção dos números da lotaria nacional? Contado ninguém acredita?
3. Porque é que ainda não cancelei a TV CABO, optando antes, ainda no campo da tortura medieval auto-infligida, pelas VHS's dos discursos completos do Avelino Ferreiro Torres na Assembleia Municipal do Marco?

Nota de rodapé: valeu a pena a espera - os "Sete Palmos de Terra" continuam a ser um delicioso murro no estômago.

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Freud explica?

Será que um publicitário esquizofrénico pode fazer dupla consigo próprio?

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segunda-feira, março 15, 2004

Ponto sem retorno.

Foi assim que o meu amigo João, cripticamente, me alertou para a irrevogabilidade da minha ausência aqui no Ponto e Vírgula - que é como quem diz, estaremos mesmo a caminhar para um ponto (e vírgula) final?

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terça-feira, março 09, 2004

Axioma du jour.

Todos os "serial killers" trabalhavam em “open spaces”.

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Pop music.

“What you can’t have anymore never seemed so beautiful before”, sussuram-me ao ouvido (literalmente – estou de auscultadores) os nortenhos Stowaways, no fabuloso “Amputated Leg”. Para além de serem uma das melhores bandas nacionais da actualidade, estes senhores têm o dom da escrita pop – a capacidade de, numa frase, encerrarem uma grande parte dos dilemas do mundo.

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quarta-feira, março 03, 2004

E o óscar não vai para...

Agora que já passou a barreira das 24 horas, e que 90% da blogosfera já se debruçou sobre a 76ª cerimónia dos Óscares, junto-me aos restantes 10% e deixo aqui um par de impressões rápidas sobre o assunto.

Preâmbulo: a cerimónia em si foi uma seca, previsível e os prémios idem, idem, aspas, aspas, com o megalómano "Senhor dos Anéis" a ser premiado pelo esforço da trilogia e não pelo último tomo da saga (relembro: o que estava em competição). Enfim, a Coppola ganhou o melhor argumento original, o que acabou por salvar a noite.

Feita a ressalva, debruçemo-nos sobre o outro lado dos prémios da Academia - as pessoas que deviam ser impedidas de assistir à cerimónia, as pessoas cuja entrada no país devia ser barrada, as pessoas que, em suma, mais valia dedicarem-se à pesca.

- Peter Jackson devia ser obrigado a tomar banho. A realização até não lhe corre mal, dentro do registo épico melodramático, mas aquele cabelo e aqueles óculos deviam fechar-lhe as portas no mundo do cinema de vez. Mau gosto, vá, mas aquilo é demais (e estou a dar o desconto da barriga porque soube recentemente que a Herbalife ainda não chegou a Auckland).

- Renée Zellweger devia ser impedida de respirar. Aquelas poses à Marylin da Brandoa na passadeira vermelha e aquele beicinho de quem vai rebentar em lágrimas tarda nada deviam servir como certidão de óbito imediata.

- Charlize Theron devia ficar feia mais vezes. Para além da transformação física impressionante que levou a cabo em "Monster", de que Hollywood tanta gosta ("Touro Enraivecido" é, talvez, o exemplo mais emblemático), a ex-modelo sul-africana ganha, e de que maneira, com menos pó de arroz e mais 12 quilos.

- Michael Douglas devia partilhar a riqueza, nomeadamente, a mulher, Catherine Zeta-Jones. O primogénito do clã Douglas está a caminhar para a senilidade a olhos vistos e um porta aviões daqueles não pode navegar sem a devida escolta. Voluntários?

- Sofia Coppola devia divorciar-se mais vezes. Ninguém achou "Lost In Translation" um bocadinho real demais para ser ficção? Toda a gente sabe que as depressões só favorecem a criatividade. Para bem da 7ª arte, ofereço-me para desposar a senhora. É um trabalho difícil, mas eu tenho o espírito de sacrifício necessário.

- A totalidade dos membros da Academia devia ser enviada para Marte, na liderança da primeira missão tripulada no Planeta Vermelho. E, sim, com lugar para o Pacheco Pereira.

Para o ano há mais – operações de marketing, desilusões, apertos de mão nos bastidores. Claro, em 16 por 9.

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terça-feira, março 02, 2004

Ninguém gosta de mim

"Eu não me importo: o Glória Fácil, embora queira ser amado, não deseja o amor de Pacheco Pereira nem de etc."

Etc.

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