A pontuar desde 2003.

sexta-feira, abril 30, 2004

Kill Ponto.

Correndo o risco de ser a)profundamente ridicularizado, b)motivo de invejas sem paralelo, c)internado no Miguel Bombarda, vou partilhar com os nossos fiéis leitores (ambos eles) um facto curioso sobre a minha vida pessoal. Para além de ter os polegares oponíveis, o meu terrível segredo é ser familiar de David Carradine, o Bill de "Kill Bill", a última obra-prima de Quentim Tarantino. E assim dou-vos um parágrafo para pensarem em insultos à medida do meu crime.

Já está? Adiante. Parece irreal, mas o avô de David Carradine era um português de boa cepa, qualquer-coisa Carradinha de seu nome, que resolveu tentar a sua sorte do lado de lá do Atlântico. Como tantos outros, esse avô de um ramo da minha família (os Carradinhas), partiu para os EUA à procura de um futuro melhor e dessa aventura veio a nascer o famoso autor da expressão "Grasshopper", aplicadada às artes marciais.

Logo, ver o segundo tomo do mais recente devaneio de Tarantino é, grosso modo, como ir a um jantar de família em casa de um tio afastado. A grande questão que se coloca é: porra, com Lucy Liu, Vivica Fox, Uma Thurman e Darryl Hannah no elenco, porque é que o tio afastado tinha de ser o Bill?

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quarta-feira, abril 28, 2004

Trapos e cacos e contradições.

Deambulo, amiúde, pelas feiras de aldeia que invadem os lugarejos de norte a sul deste nosso Portugal. Agrada-me a simetria do caos, os cheiros dos tecidos "made in china", os pregões das ciganas sem um pingo de pudor. Compro sempre qualquer coisa, mesmo que a pudesse comprar, muito mais barato, em qualquer hipermercado ou centro comercial, talvez por sentir que estou a pagar bilhete para um espectáculo que não se torna a repetir.

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segunda-feira, abril 26, 2004

A revolução, a festa e a mudança (duas verdades e meia mentira),

É verdade que desci a avenida com uma flor vermelha na mão. E depois da liberdade, a festa foi a da música. Não posso é contar mais. Estou neste momento a tentar sair de uma caixa de cartão, selada a fita castanha, embrulhada em folhas de jornais, entre dois copos e as colheres de pau.

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domingo, abril 25, 2004

Liberdade (in)condicional.

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Força, amigas, força.

O fantasma do HIV chegou, aqui há coisa de duas semanas, à maior indústria pornográfica do mundo (o lado "negro" de Hollywood), com a notícia de que um actor, num teste de rotina, tinha sido diagnosticado como seropositivo. Em resposta, uma actriz disse à imprensa que, agora que o vírus estava presente, ia dedicar-se, única e exclusivamente, ao sexo lésbico, assim como uma série de colegas suas de profissão.

Nós por cá, no Ponto e Vírgula, só queremos dizer que, à partida, não levantamos nenhuma objecção. Bem hajam.

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sábado, abril 24, 2004

Chicote de ouro.

No Jornal da Noite ouço que, entre outros crimes, Valentim Loureiro foi acusado de corrupção activa e corrupção passiva. O Major sempre me pareceu "desviante", mas S&M? Kinky, definitivamente kinky.

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quarta-feira, abril 21, 2004

Dueto a três.

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segunda-feira, abril 19, 2004

Quadro que gostaria de oferecer ao Zé Mário para a sua casa nova.

Mas que não ofereço, porque é meu.

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Fica entre nós.

Descobri uma pérola. Sem edição em Portugal, "Greetings From Michigan, The Great Lake State" do cantautor (ou, no seu original, singer/songwritter) Surfjan Stevens é aridez de deserto doce, entregue sob a forma de piano, banjo, coros celestiais e arranjos de cordas sublimes, a provar que, na música, como em tudo, "less is really, really more". Tirem da net, peçam-me que eu gravo, enfim, ouçam avidamente.

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Elogio voluntário.

É como moamba sem gindungo, futebol sem golos, cerveja sem tremoço, os Crosby, Stills, Nash & Young sem o Young, a laranja sem caroços, a Stéphanie do Mónaco sem o John, o Tom, o Don, o Alfredo, o Matt e o Fred, a Júlia Pinheiro sem as trombas, enfim, o Ponto sem a Vírgula não fazia mesmo sentido nenhum.

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domingo, abril 18, 2004

Elogio involuntário,

Comovem-me os afectos quando são mais ingénuos. A verdadeira admiração, desinteressada e por isso mais bonita, é aquela que se pressente ainda antes do anúncio.

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Notas de fé II.

Entre as extremidades de cera que, oportunamente, se vendem à porta do Santuário de Fátima e as varas de caminhante que, oportunamente, se vendem em qualquer esquina de Santiago de Compostela, parece-me haver mais do que uma diferença de matéria-prima.

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Notas de fé I.

Em Compostela, todos os cafés, bares, restaurantes, botecos e outros estabelecimentos de origem duvidosa vendem Franziskanner, a mais celestial de todas as cervejas. Foi então que dei comigo a pensar: "bolas, um gajo até conseguia viver aqui...".

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sábado, abril 17, 2004

Campo de Ourique,

Desconhecemos ainda todos os modos da luz nos bairros que havemos de habitar: as coisas secretas até onde se pode estender no último minuto, na mais longa inclinação.

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sexta-feira, abril 16, 2004

Homesickness,

Eu, Vírgula apaixonada, me confesso: mais do que saudades de falar com o querido Ponto, senti durante a hibernação uma imensa falta dos postes de elevado nível com que foi aquecendo a casa. Quem trata assim as palavras, não é gago. O que no nosso caso quer dizer: não é reticências nem se sobrepõe, duplicado, anunciando discursos ou conclusões.

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Welcome back, Vírgula. Here are your blogs,

Recordo-me hoje do último dia de trabalho de um colega, num emprego longínquo, há uns anos atrás. Estava na sala dele enquanto encerrava o computador. Vi-o dar o enter final depois de tudo guardado, depois de esvaziadas as gavetas, recolhidos os objectos - alguns: ficaram lá, coladas com fita-cola, meia-dúzia de palavras por entre os fios eléctricos que escorriam pelas paredes degradadas. O windows encerrou a sessão que ali foi, de facto, a derradeira.

Hoje passei por aquela porta pela última vez. Apesar de amanhã ou depois poder ainda atravessá-la, displicente, visitante igual aos outros. Os vidros abriram-se à minha passagem, reconheceram-me numa sensibilidade mecânica. Mas só agora, ao ensaiar este gesto a que tenho voltado durante o o último ano, pensei nessa despedida alheia.

É sempre bom sermos tratados pelo nome. É reconfortante quando o sistema nos reconhece. O blogger, como o windows, vai-nos repetindo, encontro a encontro, as mais puras das verdades.

São apenas doces as despedidas se há um regresso por perto.

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O gosto dos outros.

Gostava tanto de ser interessante, de atingir esse nirvana da sede de conhecimento, em que os ténis e as conversas parvas dão lugar a debates sobre o estado da nação e novos autores da poesia cubana.

Gostava de evitar os temas fúteis, inúteis, dispersos, diversos que só servem para maçar e cansar o que já saturado estava. Gostava de guardar este cérebro e esta memória (curta) para o que realmente interessa, como a história e a organização geo-política do mundo. Gostava de ser culto, de devorar a minha biblioteca como devoro os folhetos do LIDL e dos Pneus Cardoso, que fazem o alcatrão ter outro gozo.

Gostava de ler mais, pensar mais, falar menos, dormir menos, escrever mais, tocar mais, comer menos, rir menos, dar mais, receber menos. Gostava de gostar de coisas de que não gosto e só Deus sabe como gostava de odiar coisas às quais estou, incompreensível e irremediavelmente, ligado.

Gostava de ter um gosto diferente do meu – gostava de ter o gosto dos outros.

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quarta-feira, abril 14, 2004

O um e o outro.

A Sara diz que gosta de ir trabalhar todos os dias. Uns posts mais abaixo, diz que tem dois amores: de dia, um mac, à noite, um pc. Querida Dra. Charlotte Freud, a desassossegada serei eu?

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segunda-feira, abril 12, 2004

Luto de luz.

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A morte saiu à rua.

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Os (tortuosos) caminhos da fé.

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A chegada dos peregrinos.

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Prelúdio de uma beatificação.

Calha então que, ao invés do gelo da neve, rumei ao calor das celebrações pascais da Galiza, em Santiago de Compostela. Para os curiosos, fica a curta reportagem fotográfica, já de seguida e a promessa de uma pequena edição de "cadernos de viagem" por terras de peregrinos.

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Mesa para dois.

Comer fora sozinho é das coisas que mais me afligem - não sei se pelo receio dos olhares analíticos de quem passa, se pelo profundo sinal de solidão que representa. Com o teu regresso anunciado, Vírgula querida, atrevo-me a perguntar - dão ou palmela?

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Brevemente, aqui,

Não sei ao certo os dias que faltam. Mas serão menos, garanto-vos, do que os que já passaram desde a última vez.

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terça-feira, abril 06, 2004

A-B/D-B.

Antes, era a animação. Da Disney, da Cube, da Pixar, da Dreamworks, Manga, Anime. E depois, isto.

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segunda-feira, abril 05, 2004

Eppur si muove.

A luz, senhores, a luz.

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A persistência do erro.

Não satisfeito com as mazelas da última (e primeira) ida ao Algarve da neve, Serra Nevada, o Ponto insiste, persiste e vai testar a resistência do corpo humano, com o alto patrocínio do Hospital Miguel Bombarda. A autópsia, perdão, viagem é só daqui a 15 dias. Até lá, mensagens de incentivo e conselhos com cálcio, é na caixinha aí de baixo e no novo endereço de mail: pontovirgula@mail.pt.

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sexta-feira, abril 02, 2004

O prometido é devido.

Mais um post culinário (perdoe-me os apreciadores da acidez do Ponto, mas ele há iguarias que merecem alguma condescendência), dedicado à Dra., em jeito de "obrigado", com um grande "bom apetite" em attach".



Quiche de cogumelos frescos, presento e tomate cereja.

Cogumelos frescos
Tomate cereja
Presunto
2 ovos
1 pacote de natas light
Orégãos
Pimenta
Base de massa folhada

Mistura-se as natas com os ovos e tempera-se com pimenta e oregãos - o sal fica de fora, lugar agora ocupado pelo presunto. Este deve ser cortado em pequenos cubos, assim como os cogumelos. Depositar os sólidos e o líquido por cima da base de massa folhada e levar ao forno. Passados 10 min, retirar, acrescentar os tomates cereja cortados ao meio e voltar a colocar no quente por outros 15.

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quinta-feira, abril 01, 2004

Quase efeméride.

Também devemos ter feito um ano um dia destes, acho eu. Parabéns a nós. Presentes, é na caixinha aí de baixo. Muito agradecido.

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Ensaio sobre um ensaio.

É curioso como, de livro para livro, José Saramago parece testar os limites da paciência dos seus leitores, recorrendo a uma parafernália de insultos velados o que, imagino, lhe deve dar um gozo tremendo – analisando o sub-texto dos títulos das obras do nobél nacional, há um nítido padrão jocoso, sobre o qual urge reflectir. Senão, vejamos.

"Que Farei com Este Livro?" (Aqui, Saramago desafia o leitor a fazer algo com a obra, mas recusa-se a dizer o quê; o meu palpite seria “brasas para o entrecosto”, mas isto sou só eu a falar.)

"Levantado do Chão" (Mais uma interpelação em tom de desafio: Saramago parece interrogar o seu leitor “como é que ainda te aguentas em pé depois de ler isto?”, mas o leitor, incauto, decide ignorar a provocação e continua a esgotar os romances do nobél.)

"Os Poemas Possíveis" (Se estes são os possíveis, imagino os impossíveis – deve ser tipo o “Ulisses” do Joyce, mas em braille.)

"Objecto Quase" (Mas que raio de título é este? Parece uma daquelas peças de teatro experimental em que os actores cospem no público depois de matarem um coelho em palco como metáfora para o nascimento da luxúria.)

"Provavelmente Alegria" (Depois de comprar esta merda, provavelmente não.)

"Deste Mundo e do Outro" (É, lá isso, é deste mundo e do outro como é que ainda consegues enganar mais uns pobres incautos que se preparam para esgotar a primeira edição do “Ensaio sobre a lucidez”. É um bocado como o mistério de Roosevelt.)

"A Jangada de Pedra" (Mais um título a testar a nossa paciência – toda a gente sabe que a pedra não flutua, até a malta de direita.)

"História do Cerco de Lisboa" (Como é que ele sabe - por acaso esteve lá? É como aqueles tipos que dizem que a Moda Lisboa foi de doidos e passaram o fim de semana no Campera do Carregado.)

"Ensaio sobre a Cegueira" (Este então é uma afronta gravíssima – para além de fazer pouco dos invisuais, está nitidamente a provocar o incauto leitor: “para comprar este mono, só podes ser cego”.)

"Todos os Nomes" (Como “todos os nomes”? É daqueles livros que se compra antes de ter um filho, para ver se já legalizaram “Derlei”, “Jardel” e “Zelda Vanessa”, só pode.)

"O Homem Duplicado" (Este só pode ter sido escrito depois de uma valente narça de absinto: o homem duplicado vivia numa casa a dobrar, tinha duas mulheres – o que até nem me parece mal – e quatro mãos. Se não for assim o livro, vou eu escrevê-lo que parece-me ver aqui um caminho...)

"Ensaio sobre a Lucidez" (Para os que não perceberam com a “cegueira”, toma lá a boquinha a dobrar: “se não és cego, deves estar com os copos ou muito drunfado para comprar esta merda”. Ou isso, ou ser da família real portuguesa, o que vai dar ao mesmo.)

(Hífen, o itálico tracejado)

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