A pontuar desde 2003.

quarta-feira, junho 30, 2004

Todas as cartas de amor são ridículas.

Desde cedo aprendi que, para bem escrever, há que ler, avidamente, sorver a tinta que ensopa as páginas até à última gota, há que amar os livros e respeitá-los, confiando no retorno dessa dedicação desinteressada e, por isso, tão genuína.
Agora que o meu irmão mais novo dá os primeiros passos nas aventuras das letras, repito o conselho, mecanicamente, como só o conhecimento geracional permite. E espero que um dia o movimento perpétuo permita que esse conselho seja carinhosamente transportado para quem, como os livros, o mereça.

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terça-feira, junho 29, 2004

Passa a outro e não ao mesmo,

O SMS que supera todos os outros está aqui.

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segunda-feira, junho 28, 2004

Nome do paciente, por favor.

É grave, gravíssimo. E irreversível, ao que dizem. Depois de 26 anos de resistência, comprei a minha primeira camisola da selecção nacional. O que vale é que no Miguel Bombarda aceitam casos graves a meio da época, perdão, do ano.

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Caros leitores, caro ponto,

Agora que já é público o alterego da vírgula, o arredondamento breve da mesma e o motivo de todas as felicitações, este blogue suspende temporariamente a sua actividade. Estamos em comemorações, brindamos ao leão e ao feijão.

(Sobre as maravilhas da maternidade, sugiro a consulta do blogue paterno: mais público, mais sensível, mais que tudo.)

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domingo, junho 27, 2004

Oba, oba!

Cheguei agora da lua e, na aproximação à terra, fui lançado de novo para a estratosfera. Esta malta não deixa um pobre diabo descansar. Quais leões, quais quê - a felicidade não mora em Cannes, mora aqui, na outra metade deste blog e, claro, nesta. Viva a Vírgula, viva os três, viva!

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quinta-feira, junho 24, 2004

Justificação de faltas.

Não foi por falta de vontade nem por preguicite. Não foi doença nem virus informático. Foi um leão de ouro no Festival de Publicidade de Cannes, recebido em mãos na Riviera Francesa anteontem. Foi um óscar da publicidade. Foi do caraças. Posso voltar às aulas, stôra?

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Eco,

Está aí alguém?

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segunda-feira, junho 21, 2004

Solstício de Verão,

Amanhã e depois, todas as tardes, espero os grilos que enchem ao longe as noites curtas, cada vez menos curtas.

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Solstício,

Este é o primeiro do resto da minha vida.

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sexta-feira, junho 18, 2004

Fortemente desaconselhável.

Anda por aí um novo blog sem pretensões. Quer-se feio, porco e mau e é mantido por quatro amigos de profissão e muito mais. Calha aqui "yours truly" ser um dos colaboradores extra ordinários deste novo cantinho celestial. Como vozes de burro não chegam aos céus, a parvoeira dá pelo nome de Céu das Vozes e vive aqui.

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quinta-feira, junho 17, 2004

Postais de NY (6).

Um ex-libris da cidade, mas nem por isso menos impressionante, o Chrysler Building ombreia com a Grand Central Station e com a Biblioteca Municipal, celebrizada pelo mais recente blockbuster de verão, "O Dia Depois De Amanhã". Por mais arranha-céus que compitam pelo "skyline", há sempre um ou dois que têm a habilidade de se distinguir.

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Postais de NY (5).

Este não foi o meu primeiro Pollock, confesso. Há meia dúzia de meses visitei a Tate Modern e deixei-me deslumbrar pelo encantamento primaveril de "Summertime", uma obra impresionante, por todos os motivos e mais um: a sua dimensão. No entanto, quando vi este "Autumn Rythm", o turbilhão instalou-se de novo, como se a vida, como a conheço, tivesse começado naquele instante.

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Este verão,

À frente da janela e depois das grades, os telhados do bairro, as chaminés, as antenas e as clarabóias, as duas torres da igreja, quase que não se erguem, hesitam os contornos. Se chega até aqui o vento leve parece-me sempre salgado.

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De dentro do caixote,

Livro a livro, a poesia regressa à estante e oferecem-se as lombadas ao passeio dos dedos.

vago pressentimento

A minha vida é este inferno
enumerar, estar sentado, escrever.
O encontro de duas faltas, a ficção
desse por exemplo mais: ignorar,
aprender: a beleza, o medo,
o amor
.

Carlos Bessa publicou este poema dedicado a Ana Paula Inácio no número 12 da Relâmpago, de 2003 e sobre a nova poesia portuguesa.

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quarta-feira, junho 16, 2004

Postais de NY (4).

Outra das coisas surpreendentes na Grande Maçã (porquê este epíteto, alguém me ajuda?) é a profusão de ofertas culturais alternativas nos sítios mais inesperados. Posto de outra forma, no metro tocava um tal de Gonzalo que não envergonharia nenhum top de vendas, bem à frente de uma série de "artistas" cujo nome começa em "L", acaba e "S" e as letras do meio são "uís Represa".

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Costela chunga.

Vírgula, agora que os rapazes dobraram a Rússia, põe lá o pézinho no chinelo e desfralda a bandeira. Eu, mão na anca e tudo, já cumpri o meu dever patriótico. Ó freguesa, é a nossa selecção, é a nossa selecção.

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Postais de NY (3).

Percebi a real dimensão dos arranha-céus nova-iorquinos quando tentei seguir o perfil de um com o olhar e, por mais que articulasse o pescoço, não o consegui fazer - o topo estava já na curvatura do mundo. E o mais curioso é que, ombreados com estes monstros de betão e vidro, encontramos oásis como a lindíssima Catedral de St Paul.

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Postais de NY (2).

Patinadores fantasiados, bandas de bluegrass, equipas de baseball, famílias, jovens universitárias em banhos de sol, curiosos, leitores ávidos, Simons&Garfunkels de pacotilha, gôndolas, em Central Park há de tudo e, a julgar pela imagem, mais um par de botas.

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Postais de NY (1).

Se Monsanto é (cada vez menos...) o pulmão de Lisboa, Times Square é o coração de Nova Iorque, um jogo de luz e cor hipnotizante onde o "melting pot" é ainda mais evidente.

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Honey, I'm home.

Ainda meio afectado pela contaminante NY, volto a terras lusas com sede de prédios de três andares, ruas com menos de 50.000 pessoas (sim, eu sei que até o Euro acabar, vai ser difícil), peixe grelhado, cozido do painel e amigos. Claro que, nos primeiros tempos, vai ser complicado adormecer sem as sirenes e o cheiro a pita-schoarma em cada esquina, mas enfim, cá me arranjo.
Já vi que ficaram bem entregues e isso é que é preciso. Blogamos?

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terça-feira, junho 15, 2004

Teste,

Era este o resultado que eu temia.






You Are Most Like Miranda!



Which Sex and the City Vixen Are You Most Like?
Take This Quiz Right Now!




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segunda-feira, junho 14, 2004

Em Lisboa,

Eu sei que o Ponto está lá, fora da Europa. Eu sei que este blogue não é sério. Mas deixem-me lá celebrar um deputado do Bloco com tradução simultânea.

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Quantos são, quantos são?

O sitemeter parou no dia 1 de Maio. Aceitamos, de bom grado, abrir as negociações com o sindicato.

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domingo, junho 13, 2004

Afixe-se,

Ficaram por comentar todos os cartazes sérios dos políticos (quantos foram?), restam-me os do santo. Dão-se alvíssaras para uma ginja com elas, as letras certas, no sítio.

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Maria,

Por muito que seja eu a decidir para que lado viro, duvido sempre do sujeito da escolha. Pelos dedos, conto mais decisões que me tomam a mim do que o contrário. Vale-me ser crescida para pessoas cuja cabeça me cabe na mão.

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sábado, junho 12, 2004

New York, New York.

A um quarteirao (perdoar-me-ao a ausencia de acentos, mas a lingua destes gringos nao se coaduna com a nossa necessidade tonica) de Times Square e a dois do hotel, encontro um cybercafe disposto a acolher-me em fraccoes de meia hora. Tudo o que vi e vivi e muito mais do que uma pagina de web alguma vez podera contar, mas nao resisto a partilhar convosco um desabafo: .

(Isto sou eu sem palavras.)

Daqui a um par de dias regresso e quando tiver aterrado deixo aqui umas impressoes da viagem, sobretudo fotograficas. O mundo e mesmo uma aldeia, nao e?

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sexta-feira, junho 11, 2004

Off the record,

O problema, caros leitores, não é o Ponto estar lá pelos lados do ground zero, é que o que assalta agora as minhas ideias não é postável. Pode ser que me ocorram coisas mais publicáveis durante o fim-de-semana. Pode ser que ele volte, entretanto.

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terça-feira, junho 08, 2004

E o filosófo também,

O livro que junta oito palestras proferidas por um filósofo sobre a vida sexual de um outro já está na banca - a do editor, Cavalo de Ferro, na Feira do Livro. Senhoras e senhores, lêde, de Jean-Baptiste Botul, A Vida Sexual de Immanuel Kant, numa tradução do francês do Zé Mário Silva.

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Pretextos,

É verdade que o poste anterior disfarçava a debanda cosmopolita do Ponto e puxava para o chinelo a nossa cidade, agora mais saloia que nunca com a bandeira hasteada porta-sim, carro-não. É verdade também que não disfarçava o linque à querida Charlotte que saúda sempre os regressos da Vírgula e raramente é saudada daqui.

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Flor dos Terramotos,

É o sobrenome do snack bem atascadado ali no início da Maria Pia. O próprio: Rei dos Caracóis. Para lá da imagem apocalíptica - a terra treme e dos escombros emerge ainda uma flor, creio que o passado tectónico da cidade tem qualquer coisa a ver com isto. Parece que em Novembro de 1755 os estragos maiores se fizeram até Campo de Ourique. Ouvi mesmo dizer, um dia, que a expressão "rés-vés" vinha daí. Adiantará a etimóloga de serviço alguma coisa a pedaços de lingua com menos de mil anos de história? Um pires dos lentos e mais uma fresquinha para a mesa do canto, por favor.

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Ich bin ein new yorker.

O MoMa, o Met, a 5ª Avenida, o SoHo, Chinatown, Little Italy, TriBeCa, Finantial District, Times Square, a Broadway, as pessoas, os cheiros, o respirar de uma cidade que não espera por ninguém. A partir de hoje e durante uns dias sou, também, um nova-iorquino. Até já.

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segunda-feira, junho 07, 2004

O IV Reich.

"O campismo é uma forma salutar de viver a natureza" diz um "spot" de rádio do Pagapouco. A mim parece-me que usar as palavras "campismo" e "salutar" na mesma frase está ao nível de encaixar "himmler" e "acólito" na mesma ideia, mas enfim, isto sou só eu e o meu mau feitio.

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domingo, junho 06, 2004

Sobrevoações,

Bem no cimo do planalto da cidade e debaixo da rota mais usada para aproximação a Lisboa, mesmo que quisesse pensar em ovnis não seria capaz de me ouvir.

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sábado, junho 05, 2004

Ceci n'est pas un concert.

Devo confessar que apreciei sobremaneira o "não concerto" de Britney Spears no Rok In Rio. A menina dança, sim, estão lá os lugares comuns associados à sensualidade veiculados pelo cinema norte-americano, está lá a gigantesca máquina de produção que a maralha aprecia neste tipo de eventos. Felizmente, está também o playback, poupando-nos ao sofrimento de ter que imaginar como será, de facto, a voz de Miss Spears.

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sexta-feira, junho 04, 2004

Afinal havia outra,

A Vírgula descobriu a revista que o Ponto gostava de ler. Alice é bonita, elegante, muito bem feita, e é criativa. Com a novidade no bolso como um rebuçado derretido, perdi as ilusões: o Ponto, discretíssimo, está em todas à hora certa, e foi-lhe apresentado em primeira mão e com cerimónia oficial.

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Alice há só uma,

Não há lugar onde imagem e palavra se cruzem com tamanho bom gosto e justa subtileza. É o lugar merecido do inconsciente fotográfico, de tudo o que esconde e revela um verso.

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Vertigem,

Um amigo deitou cá para fora um livro de versos novos e velhos. Prefiro os que vi despontarem vai para dez anos. Não sei se gosto da poesia ou do cheiro que trazem.

Cabisbaixo corria um cão
Cretino cão aquele
Que cabisbaixo corria coitado
Porque correria ele?

Cretino cão aquele
Que assim corria cabisbaixo
Cabisbaixo corria ele
Corria louco, rua abaixo

O cão corria coitado
Porque lhe doía não correr
Era cretino o cão coitado
Merecia bem morrer

E lá morreu atropelado
Esventrado numa rua
Cabisbaixo o cão traçado
Atormentado da falta sua.


Miguel Soares, Vertigem, Editorial Tágide, 2004

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quinta-feira, junho 03, 2004

Estou que nem posso.

Calhou ver em DVD, em regime de cinema em casa (luzes ao mínimo, som ao máximo a testar a paciência dos vizinhos), a visão de Ridley Scott sobre a intervenção norte-americana na Somália, em 1994, que deu origem a um incidente muito badalado, sobretudo pelo insólito da situação. O próprio dá pelo nome de "Black Hawk Down" e está magistralmente realizado e, sobretudo, fotografado, conseguindo evitar alguns dos clichés associados ao heroísmo tão apreciado em terras de Tio Sam. O problema foi depois - tive que tomar um kompensan para curar o "motion-sickness" causado pela experiência. Venha o cacilheiro da Transtejo em dias de nortada. Ao pé disto, não é nada.

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Inflacionando os sitemeters,

Com a ADSL numa tomada provisória ao meio da sala e o portátil em cima de um caixote, deu-me para isto. Passo a vida à espera de postes novos destas meninas.

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A publicidade onde todas as palavras contam,

"Table du séducteur" era assim que se cruzavam as letras nos tampos das mesas, nas esplanadas de Paris, em Setembro do ano passado. Ah, Paris.

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Pensava que era a poesia,

Quando desempacotamos, muito tempo depois de seladas as caixas, ganhamos outras perspectivas sobre os objectos ali adormecidos: coisas de que nos esquecemos, pormenores até agora desconhecidos. Descobri hoje, por exemplo, que o scrabble se assume, debaixo da embalagem, como "a dádiva das palavras."

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quarta-feira, junho 02, 2004

Versos soltos em torno de grandes barrigas,

"Uma hora pequenina foi a expressão mais bonita que aprendi nos últimos tempos" disse o futuro pai. Sim. E "no fim do tempo" também, o valor clínico da medição em semanas não lhe cura a poesia.

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Demonstração,

Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa

Hoje abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal
olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo


Um milagre são os quatro primeiros versos da Ana Paula Inácio. (O poema foi sacado à naifa, os retalhos não são da minha responsabilidade.)

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terça-feira, junho 01, 2004

A teoria da relativização.

De tantas coisas que gosto na minha profissão, a que me dá mais prazer é, sem sombra de dúvida, o momento em que surge uma ideia. Reconhecêmo-lo de imediato: as pupilas dilatam, a imensidão de informação que nos cruza o cérebro parece dissipar-se e, qual D. Sebastião por entre a bruma, surge, una e muitíssimo definida, a ideia. Estes milésimos de segundo de puro rejubilo premeiam, por vezes, horas e horas de esforço aparentemente inglório. E fazem todo o tempo parecer valer a pena.

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Poste a poste, de volta ao mundo,

"Retome um blogue de cada vez", sugeriu-me a voz médica, entre todas as outras que se misturam na minha cabeça. Começo com doses curtas, hoje vou ler este. Escutei-o primeiro no verdadeiro sentido, os telemóveis chegaram antes da blogosfera.

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Linque para a estante,

Em vez de carregar aqui, estendo agora o braço para a prateleira. Fica bem ao lado de "A Causa das Coisas", o "Fora do Mundo", mais do que junto ao "Eliot e Outras Observações".

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A minha caixa do correio,

Havia mais uma razão para eu não querer o autocolante contra a publicidade não endereçada. Tenho explicado a várias pessoas que gosto de saber das promoções dos supermercados das redondezas, que me irritam muito mais as missivas que me são dirigidas e assinadas a esferográfica, com um texto igual ao dos outros seis mil e quinhentos portugueses que alguma vez tiveram o cartão jovem. Não me compreendem. Vou escrever agora duas palavras: catálogo, Ikea.

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Contra-relógio,

Gostava de viver no sentido dos ponteiros. O tempo vai mais depressa à bolina.

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