A pontuar desde 2003.

quinta-feira, novembro 25, 2004

O tecto do mundo.

Saí de casa dos meus pais há uns anos, não sei precisar quantos. De todas as coisas que sinto saudades na casa que deixei, talvez esta seja a que mais me assola a memória. Mãe, posso ir aí jantar no fim de semana?


|

Poesia involuntária.

Porque nem tudo é feito de negrume e uma vontade irresistível de ter acesso a um arsenal de napalm, também há poesia nas repartições de finanças. Junto da placa que indicava a secção de Imposto de Valor Acrescentado, uma outra anunciava, inesperadamente, esse tipo de queixumes tão idiossincráticos, as reclamações graciosas.

|

Oh mamma mia, mamma mia, let me go.

13º bairro fiscal, 8h30, munições, boa vontade, paciência, tempo. Eu tinha tudo, meus amigos, eu tinha tudo mas, confesso, não estava preparado para tamanha adversidade - o funcionário público. Meia hora em pé sem ninguém me dar cavaco? Ok, eu espero. Quarenta minutos de "o guichê não é este", "agora tem que ir pagar à tesouraria", "isso é com o meu colega Antunes que hoje está atrasado", "ui, o meu amigo tem aqui um bico d'obra" ou "quer o quê?", eu aguento. Sentir-me um perfeito atrasado mental por ter estado vinte minutos na fila errada? No problem. Agora, Tom Jones, Queen e Paulo Gonzo como banda sonora? Maldade pura...

|

terça-feira, novembro 23, 2004

Volto já.

Mais dia, menos dia, estamos de volta. Vemo-nos daqui a uns posts.

|

domingo, novembro 21, 2004

Muito cá de casa.

Para quem já viu, andar atrás dos actores em cenários improváveis, com jantar pelo meio e tudo, não é nada de mais. Para quem nunca viu, a estranheza dilui-se ao fim de poucos minutos. Afinal, somos todos cá de casa. Assim prometem os Fatias de Cá, grupo de teatro com Tomar como sede e o resto de país como palco. São várias as peças que estas centenas de actores, encenadores, músicos, professores e tantos outros encenam em simultâneo. São obras de amor, feitas de uma forma nem sempre genial, mas muitíssimo eficaz. É teatro em movimento, encenado onde faz mais sentido.

Por exemplo, "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, foi acolhido pelo Convento de Cristo, em Tomar, com a intriga a desenrolar-se um pouco por todo o espaço, desde os claustros, à biblioteca, passando pelo refeitório, onde os espectadores são convidados a sentar-se à mesa com Dominicanos, Beneditinos e Franciscanos, as ordens religiosas que dão colorido ao pano de fundo deste policial ancestral.

No final, os Fatias de Cá cumprem o prometido e presenteam os convidados com fatias de tomar, café e dois dedos de conversa, para quem quiser conhecer os homens e as mulheres que ficam por lá quando o pano cai.


|

sexta-feira, novembro 19, 2004

O pequeno André,

Não pesa ainda quatro quilos. Nos meus braços, ainda menos porque me assustam as pessoas assim tão pequenas, corpos muitos leves e sons inesperados. Quando acordou, abriu os olhos e os poucos quilos ficaram todos no olhar decidido com que se ligou insistente, sem um desvio, à mãe que, de cor, cuidava dele.

|

Poesia, o avesso dela, as palavras dele e imagens que valem tudo mais,

Aqui, na blogosfera.

|

quinta-feira, novembro 18, 2004

O sol é bonito, alimenta as plantas, a ver o pôr-do-sol, tu já não jantas.*

A honeymoon at last,
to get away from it all
My assistant Fe gave me the call.

I remember it well,
as she was smilin'
She said it was called Turtle Island.

I packed my bags
light and quick,
Then grabbed my pink dress & favorite lipstick.

We hopped on a plane
and took our flight
I slept really well, all through the night.

As we arrive,
I turn and look out the door,
People are greeting us right at the shore.

A meal, a shower
and some ice cream
Then I threw my man down, you know what I mean!

Magical nights
filled with stars
Silence is golden, no running cars.

Private dinners,
romantic fires
Little piece of heaven, whatever your heart desires.

Friendly "hellos"
and never goodbyes
When you're having fun, oh, how time flies!

As we sit and prepare
to make our part
I thank you, Turtle Island, with all my heart!

Poema de Britney Spears, escrito depois da sua lua-de-mel.

Zé Mário, Pedro, desculpem lá ter que ser eu dar-vos a má nova, mas mais vale pousarem a caneta e o bloco. É que, a partir desta obra seminal, a poesia como a conhecemos nunca mais será a mesma.

*Verso original do meu bom amigo Rodrigo, escrito numa época especialmente conturbada da vida do artista, algures entre a terceira e a quarta classe.

|

terça-feira, novembro 16, 2004

Já Platão o dizia.

Entre o mundo das sombras e o outro, tanto.


|

As generalizações dos outros,

Irritam-me levemente as pessoas que dizem sem mais argumentos além da sonoridade: «não gosto de cinema francês». Sou forçada a pôr o pé na poça ao lado: «eu gosto». Suspeito que o novo filme da Agnés Jaoui não tenha o impacto d' «O Gosto dos Outros», mas há qualquer coisa de muito francês e muito cinema na forma como se relacionam as personagens à la Rohmer, no modo como os bons não são os que querem ser e os maus são iguais aos que nos são próximos. E eu gosto disso.

|

Alarme,

Atenção, o poste anterior faz uso da generalização grosseira e sobranceira enquanto figura de estilo. Talvez não seja aconselhável a politicamente sensíveis ou a utilizadores diários do IC19.

|

Uma questão de nomes,

Em Paris, os comboios suburbanos têm nomes próprios de pessoa. Chamam-se Sara, Igor, Larissa, Sophie. É bonito podermos tratar individualmente a causa do nosso atraso. Mas qualquer coisa me diz que nas carreiras da linha de Sintra a poética da fórmula, «perdi de novo a Bruna, desculpa», ficaria esquecida algures entre as linhas da cédula pessoal de muitos dos que por ali habitam.

|

segunda-feira, novembro 15, 2004

Mais luz, muito mais luz.


|

Poses.

Aula Magna, sábado, dez em ponto. O artista é canadiano, acolhido por Nova Iorque, mas a pontualidade é bem britânica. Com (muitíssima) pompa, Rufus Wainwright entregou-se, como presumo que faça sempre, a um auditório rendido desde o primeiro tema. Piano, guitarra e uma voz celestial, dramática, operática, tão devedora da tradição dos grandes tenores como da intensidade da chanson française, Rufus chegou, viu e venceu. Comunicador de primeira água, delicado, intenso, genial. O momento alto da noite, e por razões óbvias, a extensíssima e dedicada apresentação ao tema "Memphis Skyline", dedicado ao malogrado Jeff Buckley, imediatamente colada a uma interpretação fabulosa de "Hallellujah", um dos hinos de Leonard Cohen, celebrizado pelho filho de Tim Buckley.

No fim, Rufus prometeu voltar a este "país latino de raízes celtas", onde somos todos "morenos, bonitos" e onde se sente "muito, muito sexy". E não é que é mesmo?

|

Coisa feia, a inveja,

A chuva inesperada e a água no tecto;
um mês à espera de uma inspecção da Lisboagás;
os piscas todos ligados durante um almoço inteiro e o carro sem bateria na noite mais fria do ano.

Mas a Alice vai ser uma pessoa muito bonita.

|

quinta-feira, novembro 11, 2004

Raros minutos,

Para além dos infortúnios, encanta-me ainda a luz deste verão tardio.

Quando não estou a passar à frente das outras pessoas nas repartições públicas,
a descompor os pobres funcionários da Lisboagás,
a meio de uma consulta médica,
a tentar dormir qualquer coisa,
a resolver o problema da chuva no tecto da casa nova ainda por habitar,
a atender clientes descontentes com a muita fama e o pouco proveito do balcão onde me escondo ao fim do dia,

quando não estou a fazer nada disso, estou sentada num banco de ripas a pensar que somos duas.

|

quarta-feira, novembro 10, 2004

Terapia de choque.

E depois de um dia de trabalho, o que é que faz para descontrair? Já fiz esta pergunta inúmeras vezes e, entre respostas previsíveis, evasivas, desconcertantes ou surpreendentes, já ouvi de tudo um pouco. Banhos de imersão, um copo de vinho e cinco minutos de absoluto silêncio, "junk tv", columbofilia, culinária ou mesmo o dolce fare niente. Cá eu, ponho música com o volume muito para lá do clinicamente aconselhável e o resto é o que se vê.


|

Never, never land.

Não quero crescer nunca.


|

Post excessivamente confessional.

Tenho saudades tuas, avô.

|

terça-feira, novembro 09, 2004

Sorriso amarelo.

Vicissitudes de quem não tem um contrato de trabalho, e para fazer um enorme favor aos meus pais, vi-me forçado a pesquisar informação sobre seguros de saúde na net. Já no site de um dos possíveis candidatos a tratar-me da dita, deparo com a fascinante informação, relativa à especialidade de estomatologia.

"Excluem-se das garantias do DentAll:

- Despesas resultantes de guerra ou de qualquer acto de guerra, quer esta tenha sido declarada ou não, assim como revoltas, motins, actos de violência e assaltos motivados por razões políticas ou sociais e de calamidades naturais de tipo catastrófico.

- Despesas directa ou indirectamente consequentes de transmutação de núcleos do átomo, bem como as causadas pelas radiações provocadas por aceleração artificial de partículas atómicas."

A parte da guerra e dos motins ainda engulo (escolha de palavras infeliz, mas enfim), agora a quantas pessoas será familiar o seguinte diálogo?

Dentista: "Eh pá, o meu amigo tem aqui uma cárie que parece o túnel do Marquês!"
Paciente: "O doutor não me diga nada, que tou farto de avisar a minha Adelaide que o cabrão do acelerador de partículas está com uma fuga, mas como não é ela que tem a cremalheira neste lindo estado, é como se tivesse a falar prás paredes..."

|

segunda-feira, novembro 08, 2004

Bowllyfood.

Sou um fervoroso adepto da gastronomia indiana. Aliás, sempre que posso, vou em romaria ao indiano da Praça da Alegria, um antigo bar de alterne cujas paredes ainda preservam os frescos romanos que davam um colorido temático à casa. Depois da mudança de ramo, os actuais donos optaram por respeitar a obra de arte dos seus antecessores, riposteiros de veludo vermelho incluídos, acrescentando um toque daquilo que nós, ocidentais, consideramos genuinamente indiano - posters de tigres, donzelas em apuros e garbosos cavalheiros impecavelmente barbeados, figuras de sheeva e outras divindades hindus.

Aparentemente, o toque indiano ainda não estava completo. Hoje, entre um chicken tika masala e um cheese nan, espreito pelo canto do ombro e descortino uma (noutras circunstâncias, desagradável) novidade - uma televisão, devidamente ligada a uma série de outros aparelhos electrónicos, 5.1, 16:9, dolby etc, com um fabuloso filme de bowllywood a passar em loop.

Chamuça vegetariana no prato, adónis nas paredes, amigos à mesa e dançarinos dispostos a empunhar uma arma para defender a honra da família no ecrã - qual Bica do Sapato, qual quê. Mais quatro cobras?

|

sábado, novembro 06, 2004

Lembrete.

Já vos disse que este e este blog são muito bons?

|

Ladies and gentleman.

Um círculo que se desenha a si próprio, vezes sem conta. Um som que se cola à pele e que teima em queimar, em arder lentamente, como uma ferida que coçamos no momento antes de cicatrizar. O último dos Death In Vegas, imperdível.



|

Destroços.

A meia dúzia de passos do sítio onde trabalho há um enorme baldio que em tempos foi ocupado por um armazém, dos idos da Revolução Industrial. Os donos, sabugos, permitiram que um incêndio deflagrasse no seu interior, alastrando-se mais tarde à fachada, um marco arquitectónico do dito período. A Câmara Municipal de Lisboa, num surpreendente acto de lucidez, embargou o que parecia ser uma demolição total do edifício, obrigando o proprietário a reconstruir a parte da fachada que tinha ruído, deixando o miolo num enorme vazio.

Toxicodependentes vários, oriundos do Casal Ventoso, aliviam ali os seus sofrimentos, chegando mesmo a pernoitar no espaço. Aos sábados e domingos de madrugada, as ruas circudantes enchem-se de vampiros oriundos de uma discoteca próxima, óculos escuros a cobrir o que a noite arruinou, espelho e cartão de crédito nas mãos para aliviar outras dores, outros vícios.

No meio de tamanha azáfama, o baldio, onde se encontram, amiúde, circuitos electrónicos, placas deformadas pelo calor das chamas, fósseis com milhares de anos de histórias para contar, resquícios de um tempo que, um dia, encheu aquele amontoado de terra e tristezas.


|

quarta-feira, novembro 03, 2004

Singela homenagem.



Os meus mais que sinceros parabéns ao recém eleito presidente dos Estados Unidos da América. Para além da notável semelhança física (sem demérito para o Gollum), a necessidade da posse é por demais evidente no nosso queridíssimo "monkey boy" (dito assim, quase que parece ternurento). Como sempre suspeitámos, "it's mine, my prrrecious...".

|

Outra galinha,

Pior do que quatro anos com George W. Bush no poder? Oito anos de George W. Bush no poder.

|

Por que é que uma galinha atravessa a estrada?,

Pior do que um ano com uma mudança de casa? Um ano com duas mudanças de casa.

|

Fuso eleitoral (2).

Olha, afinal foi o Ohio. A Compta fez um bom trabalho, este ano - 3.500.000 de votos a mais. Limpinho, irrefutável, democrático. Acho que vou mandar pôr uma botija de gás no carro, que isto cheira-me que a gasolina vai andar pela hora da morte.

|

terça-feira, novembro 02, 2004

Fuso eleitoral.

Daqui a umas horas (dias?), o novo senhor do mundo será eleito por milhões de eleitores espalhados pela América. E, ao que parece, pela Florida também.

|

N*S*E*O*.


|

E da noite se fez dia.


|

segunda-feira, novembro 01, 2004

Dúvidas, dúvidas.

O bife com ovo a cavalo chamar-se-á assim pelo dito (ovo) estar montado no bife? Dúvidas, dúvidas.

|